São Paulo, 18 de dezembro de 2017
eu não consigo escrever um poema sobre você porque minha pele não rasga quando você me toca (ainda)
eu não queimo quando você me abraça e seu cheiro não me atazana a cabeça, não quebra não doí não fere
também não transcendentaliza e não incendeia mas nada disso importa quando a madeira já apodreceu desde a última catástrofe
devagar devagar devagar lento delicado eu não posso ter pernas violentas contigo porque seu relógio biológico é invertido mas não tem problema porque você parece que veio pra botar limite no furacão que eu virei
mesmo assim eu te atinjo a duzentos quilômetros por hora enquanto a luz da mamba brilha nos nossos olhos dilatados e te digo coisas impensáveis imprudentes esperando o silêncio dilacerante mas sua boca abre e eu vejo as palavras saindo sobrevoando me atingindo no meio do peito como os afagos que você me faz quando dormimos juntos
já te avisei mil vezes que eu sou dessas mergulhadoras profissionais
me entrego completamente pra todo mundo que me toca
então
hoje sou totalmente sua e amanhã serei totalmente dela
enquanto ainda tô tentando resgatar pedaços meus perdidos pelos caminhos desconexos de perdizes
se você aguentar a violência do meu barulho eu sou tua hoje sim e na próxima sexta
meu cheiro vai ficar no teu colchão
meu cheiro vai voltar toda vez que você ver alguém fumando um lucky mentolado porque meus cabelos grudam em todos os cantos
eu gosto de deixar um rastro profundo daqueles que riscam o assoalho novo e não saem nunca mais
eu sou louca, sabia?
dai você diz que é tarde demais pra fugir da minha insanidade, do meu clichê literário e eu sorrio porque não suporto fugitivos
a intensidade cresce exponencialmente enquanto você continuar tocando minha música favorita não diga que eu não avisei eu sou incansável
desliga num estalar de dedos
