São Paulo, 21 de julho de 2019

sabemos porque voltamos aqui.
ou ao menos, eu sei.
o sol nasce no horizonte enquanto um homem dorme profundamente na cama atrás de mim e quase não o percebo

(o sol)

dada a cegueira causada pela tela brilhante em minha frente.

§

o sino bate seis vezes
tudo está terrivelmente desordenado
nada é categórico
seguro
convicto

§

pronto.
essa é a primeira vez que amanhece enquanto escrevo sobre você.

funny funny funny little girl — carta número quatro

São Paulo, 22 de julho de 2019

[trigger warning: longo para cacete]
Querido Carlos,

Re-escrevi essa resposta (partindo do pressuposto de que há algum tipo de “conversa” surgindo a partir das correspondências) um milhão de vezes. Minha demora em responder, fugindo do padrão de resposta rápida anterior, se deve ao fato de que essas últimas semanas vem sendo muito cheias, pesadas, corridas e simplesmente não houve tempo, não houve condição para que eu te respondesse antes. Digo isso porque, mesmo assim, talvez eu ainda não esteja satisfeita com as palavras que coloco aqui.

Acho que posso, sob pretensão de não me alongar muito, fazer algumas observações antes de ir ao conteúdo principal da carta, se é que ela terá algum.

Primeiro que talvez seja importante estabelecer que não são necessárias desculpas pela demora em qualquer resposta. Essa talvez seja a ideia das cartas. Claro que não estamos usando o método convencional, com papéis, selos, carteiros, enfim, mas cartas demoram a chegar, demoram a ser lidas, demoram a ser respondidas. Não imaginei que sua demora tenha sido por vaidade ou covardia, mesmo porque nem ao menos pressupus com certeza que houvesse resposta e desta forma, também, talvez seja importante dizer que no momento não me interesso em absoluto por qualquer tipo de jogo mesmo porque eu mesma sou uma exímia piscadora. No mais, espero que estejamos livres de vaidades entre nós.

Sobre o morto, o nome dele era Rogério. Sobre suas palavras, eu sinto falta de todas, mesmo as que você considera desgastadas. Sobre a morte, nunca fui muito de espiritualidade. Às vezes sinto falta sincera de ter uma cabeça um pouco mais aberta nesse sentido, mas confesso que, se pensarmos em fé no sentido de confiança absoluta em algo ou alguém, venho tendo, com uma certa frequência, uma sensação de confiança absoluta em algum tipo de coincidência ou jogo cósmico quando se trata de alguns assuntos específicos, dentre eles, as mortes que presencio no meu dia a dia.

A pessoa analítica dentro de mim fica procurando algum tipo de explicação batida que justifique essas sensações: mecanismos de coping inadequados, “sintomas” de algumas neuroses, enfim, algo disfuncional que invalide a sensação física e é por isso mesmo que decidi usar a palavra fé no sentido de confiança absoluta mesmo.

E sobre esse assunto já não me resta muito o que dizer, já que as tarefas diárias corroeram a percepção dessa morte há alguns dias. Há algumas outras considerações, no entanto, que fui fazendo ao longo desse período que ruminei minha carta, as quais não foram totalmente descartadas nessa minha tentativa número sei lá qual de te escrever alguma coisa coerente, então que seja.

É horrível demais a parte em que se coloca o lençol em cima do corpo. É, sem dúvida, a parte que eu mais detesto. A ideia talvez, de um parente assistir a colocação do lençol, depois das devidas despedidas ao cadáver, é de aceitar a partida. Ver a palidez e o livedo no corpo e entender que aquela pessoa não existe mais. Não aqui, não conosco.

E sabe, dentro de mim há até um certo desconforto em me imaginar morta, com meu corpo maquiado de maneira póstuma, enfiado num caixão toscamente caro, em um velório desgraçado, sem comida, sem bebida, seguido daquele procedimento tragicamente cômico de quebrar concreto dentro das lápides para que, após o devido posicionamento do caixão, se passe novamente o concreto, fechando meu corpo oco e de certa forma, profanado pelas pessoas que ficaram.

Não é a ideia da morte em si, veja bem. Não me incomoda saber que ela virá e será como terá que ser. O que me aborrece é essa coisa toda de lençóis, cadáveres, concreto e partidas inesperadamente derradeiras.

Seguindo por esse raciocínio, que pode ser absolutamente incorreto, acredito ser por isso mesmo que me incomoda tanto essa sua ausência não-ausente, assim como a sua tentativa incompleta de dar fim aos seus textos. Você não está morto. Seguir com esse ritual frio como vínhamos fazendo faz cada vez menos sentido na minha cabeça.

Você está ai. Eu vivo na casa em que você viveu, sou amiga do seu melhor amigo. Ouço histórias sobre você. Não posso fingir que você não existe, porque fatalmente você existe. É exatamente como cobrir com terra e dizer que Portugal mudou-se.

Às vezes eu acho que o que é correto, o que me parece recomendado pela American Heart Association, o que me soa como a técnica principal empregada pelos melhores e maiores profissionais da área abre aspas como entender suas neuroses e merda de personalidade e fazer de uma vez por todas algo a respeito fecha aspas seria, na verdade, seguir com essa idiotice de fingir que nada aconteceu e que você existe sem existir. Assim, toda vez que o Caetano faz uma piada com o fato de você ter largado peças de figurino por aqui ou quando eu encontro mais um pacote de farinha de mandioca socada no fundo do meu armário eu deveria apenas agir como se aquilo não passasse de um delírio coletivo dos habitantes do 173.

Desde que você saiu do apartamento, tive que arrumar outra terapeuta por motivos financeiros. As histórias todas tiveram que ser repetidas e portanto foram contadas e recontadas e analisadas sob um milhão de perspectivas, entuchadas de argumentos psicanalíticos (por vezes de qualidade duvidosa, na minha opinião), mais por desejo da terapeuta do que meu, tendo como efeito final a sensação de que todo o assunto ficou quase completamente esgotado. Estava feito, ou pelo menos feito estava, de maneira prática, porque tudo continua dentro de mim e tende a transbordar nos momentos que estou sensível com acontecimentos quase exclusivamente sem relação direta com a sua existência. Contudo, mesmo que mal, estava feito.

Até você responder minha primeira carta.

A partir daí, não chegamos a porra de conclusão nenhuma sobre nada. Sentimentos, desejos, vontades, intenções, nada. Tudo está decididamente indeterminado. Confesso que ela é péssima em me convencer dos questionamentos que ela propõe assim como eu sou péssima em me convencer dos questionamentos que eu mesma me proponho, porque eu sou tão prolixa e verborrágica que me perco dentro das infinitas possibilidades e imensuráveis questionamentos dentro de mim mesma e termino tão escorregadia quanto você nas suas imagens semi-dantescas.

Sem falar que ela tem uma mania de me fazer questionamentos que acho forçosos, sem sentido, talvez psicanalíticos demais, talvez puros demais para que eu consiga quebrar minha própria barreira e deixá-la entrar. Em sua defesa, de fato, cheguei em uma conclusão sobre mim.

Eu frequentemente me pego testando limites. Até onde eu aguento, até que ponto eu posso me fantasiar como uma cobra faminta sem correr o risco de ser capturada, até que ponto eu posso brincar com todos os meus contextos inflamados dada a minha propensão a incêndios. Até onde eu banco essas coisas todas, essas histórias todas, essas encruzilhadas, essas partidas e retornos ou não-retornos.

E agora me pergunto também até onde você banca todas essas apostas que você está fazendo, todos esses riscos que você está correndo, sejam lá quais forem eles, supondo com arrogância que eles existam. E levando mais adiante esse fluxo de pensamento desconcertante fico me perguntando o que estamos fazendo aqui, me questionando por que você respondeu minha primeira carta, o que você estava fazendo andando por essa vizinhança, por que meu primeiro reflexo foi te responder, por que eu continuo respondendo mesmo sem estar em paz com nada dentro das minhas auto-reflexões. O que estamos fazendo, enfim?

Mas veja, eu não quero de maneira alguma que você me responda nenhuma dessas perguntas. Se você sentir necessidade, obviamente que não irei te impedir, mas não é com esse propósito que as disponho aqui. Não sei bem o que virou essa carta depois de tantas lidas, re-lidas, re-escritas, re-visões, mas saí de um rascunho inicial afogado em sentimentos confusos, voláteis, não confiáveis e paradoxais e assim como está agora, ao menos, discorro aqui sobre questionamentos existenciais, sobre auto-reflexão, até como uma lição de casa da terapia além de um exercício literário e de uma carta.

Por fim, confesso que me senti obrigada expor tudo isso aqui porque eu não faço uma puta ideia de que merda toda é isso aqui, Carlos. Nada além da obvia definição objetiva de que é uma carta é uma carta é uma carta. Afinal, cartas, poemas, lixo cibernético, álcool, zolpidem, listas de coletivo feminista… Que porra é tudo isso no fim das contas?

Espero que você não tenha se desesperado até agora e fugido o mais rápido possível da frente do computador e da pessoa confusa, indecisa e sem rumo que me tornei ou da sua interpretação posterior da imagem de mim mesma que criei dentro desse texto. Eu sei que minha verborragia e meus pensamentos a cento e noventa quilômetros por hora são por vezes esmagadores ou opressores, mas esta talvez seja o cerne da minha falta de caráter, como o cerne da sua pode ser sua incapacidade de dizer o que precisa ser dito.

Mas a intenção não é assustar, não é pressionar, não é obter nenhum tipo de resposta, ou ao menos, não mais. Não depois de diversas-não respostas suas, da medicina, da vida. Talvez você possa ver com graça essa característica, como gostam de fazer meus amigos apreciadores da minha personalidade fodida.

A coisa fica mais complicada a partir desse ponto, então talvez essa seja uma boa hora para você fazer uma pausa. Tomar um café, ir trabalhar, fumar um cigarro, acariciar o gato, entrar debaixo das cobertas da sua cama que provavelmente está aquecida pelo corpo adormecido da pessoa que divide esse espaço com você todos os dias. Se precisar, volte mais tarde.

Digo que fica mais complicado porque é a partir daqui que tento destrinchar de maneira lógica o que eu acho que sinto com tudo isso, sendo esse, por hora, o trabalho mais difícil que venho desempenhando em todas as áreas da minha vida.

Sei que sinto sua falta, imensamente. Mas não gostaria que você estivesse aqui.

Sei que me perguntei esses dias todos depois da sua primeira carta, se você também sente falta de mim.

Sei que há uma raiva cínica misturada com um tanto de humor, de pertinência no mínimo questionável, aprisionada no fundo das minhas vísceras, por você ter saltado do nosso carro, sem aviso, na próxima esquina. Mas bem sei também que essa raiva não deveria haver de ser.

Sei que esse último sentimento não é suficiente para que eu prossiga com a minha (nossa?) performance de esconde-esconde, apesar de me considerar amplamente qualificada para essa função, especialmente considerando minha capacidade infalível de não me comunicar com você, muito menos de maneiras inapropriadas em madrugadas aleatórias.

E essa última coisa aqui, eu não sei como quem sabe que o sol vai se por novamente no fim do dia. É mais como uma sensação que conversa com o que eu disse mais pra cima, mas com uma intensidade menor. Sensação essa incoercível, quase primitiva ou visceral, como preferir, de eu não terminei por aqui. E você, Carlos, terminou?

Essa sensação é acompanhada de uma vontade frágil, tímida, de começar de novo com você. Outra chance, do zero. Mas sem os mesmos erros dessa vez, pelo amor de deus. Sem a inocência tola (ou malícia irresponsável) de supor que não há sentimento onde claramente há sentimento. Sem decisões precipitadas, mal ou não plenamente planejadas. Mais importante ainda, sem as mentiras, sem as traições, sem a luxúria desmiolada, sem toques desnecessários, sem afagos perigosos. Sem jogos. Sem serpentes, feitiços ou cortinas de fumaça. Enfim, parece-me que há tempo demais restando em nossas vidas para que essas nossas ausências não ausentes permaneçam cutucando nossos pensamentos, supondo novamente com arrogância, que os seus pensamentos são cutucados de uma forma ou outra.

É, como eu disse, frágil, tímida, volátil e não é algo para agora. É algo a ser feito no tempo que deve ser feito, isso se for feito, talvez em meses, talvez em anos, talvez nunca. Não é uma expectativa, não é uma condição sine qua non. Muito pelo contrário, pode ser até que torne-se não querido no fim do que tiver que ter fim.

Por hora, talvez o que eu banque e deseje com menos fragilidade é que sejamos correspondentes. Dessa forma assim, simples, como está. Eu te mando cartas e você me manda cartas e vice versa. Cartas atravessadas pelo tempo que demoraríamos ou demoraremos para lê-las, pensar sobre elas, respondê-las. Quase como que um acordo de damas ou cavalheiros, mas não um contrato, uma sugestão, que pelo seu até logo, não me parece tão absurda. Mas isso só posso supor e bem, veremos.

Estamos próximos do fim dessa carta obscenamente longa e, aproveitando o ensejo e a oportunidade de fazer uma gracinha, te pergunto novamente: de quem eram as malditas coxas, Carlos?

Finalmente, deixo aqui registrado o que eu não banco. Não banco que você desapareça novamente sem aviso. Não banco a falta de dignidade em te ver partindo de qualquer relação comigo exclusivamente seguindo suas próprias regras e seus silêncios violentos. Se for para ser assim, prefiro que nem seja.

Eu preciso, Carlos, da oportunidade de chorar os meus mortos, quando houverem, à minha própria maneira. E de arremate, digo-lhe especialmente que não banco continuar fingindo sua morte dessa que vínhamos fazendo, pois como você bem sabe, mortos não escrevem cartas.

Até breve,

Berenice.

Exercício de arremate do teu exercício de arremate

São Paulo, 22 de julho de 2019

o chão duro esmurra meus pés descalços enquanto corro pela rua molhada e áspera. o ar entra e sai dos meus pulmões como saem de um asmático no leito de morte, rasgando meus alvéolos e emitindo um chiado característico e derradeiro. o ruído sai pela pele do tórax, ecoando as batidas mecânicas das ondas sonoras nas trabéculas das minhas costelas. sinto seu hálito doce próximo do meu ouvido. suas palavras incompreensíveis, suas metáforas arborizadas, seu discurso escorregadio esgueiram-se para dentro do meu crânio, infiltrando minha mastoide. você finalmente me alcança, me toma nos seus braços e me assiste com a ternura de um carnívoro primitivo. mas bem sei que não posso olhar nos seus olhos e ouvir sua voz porque seu sussurro me colocará num transe incendiário e suicida. meus olhos se abrem arruinados e sedentos pelo amendoado da sua pele, das suas sardas e dos poços no interior das suas pupilas. sou arrebatada pelo cheiro de lavanda da vaidade e nos olhamos por muitos minutos, em completo e expectante silêncio, o ar fino como uma lâmina. meu ventrículo contrai a cento e trinta e oito batimentos por minuto, se debatendo num desespero moribundo.

(…)

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down

(…)

agora estamos entrelaçados como dois animais enfurecidos, lutando um contra o outro, meu rosto desviando do seu, tentando não sufocar com o cheiro das ervas que você carrega no bolso. o thriller se intensifica nesse momento final e eu percebo estar incorporando minha própria previsão caricata. nossos olhares se cruzam novamente nessa minha imobilidade tônica e se focam um no outro em cumplicidade. percorro seu rosto em busca das respostas de todas as minhas perguntas, revolvendo todas as minhas interpretações, numa revisão infinita de todos os passos e todos os gestos. busco esfomeada, desesperadamente, algo que me ancore dentro da sua psiquê, atrás da muralha de fumaça, mesmo sabendo que essa terra árida e infecunda é causadora da minha própria fome. minha visão se preenche com fosfenos e meu rosto se alivia como que após um longo e doloroso espasmo quando sua boca chega a minha mais rápido do que eu posso prever. sinto todas as terminações nervosas cheias de dopamina, como o rush da primeira gota de heroína dentro da veia, como a fumaça do primeiro cigarro fumado em semanas inunda os pulmões cansados, como o primeiro orgasmo que tive com a sua língua na minha buceta. absorvo toda a vaidade contida nesse beijo delirante, maníaco e desvairado enquanto sinto a lâmina da sua faca dilacerando as minhas vísceras, abrindo-me de baixo a cima, o sangue grosso escorrendo pelas minhas pernas formando uma única mancha no asfalto, bem abaixo do meu ventre. sua mão gira a faca cento e oitenta graus para direita e a solta dentro de mim, segurando-me somente com seu outro braço. sinto minha mente esvaecer enquanto olho hipnotizada seus olhos cor de âmbar escurecidos pela noite sem lua sugando minha alma e quando sinto a última gota de humanidade escorrer pela minha boca retorcida como em um orgasmo masoquista descubro-me concretamente sozinha e, horrorizada, deparo-me com as minhas próprias mãos segurando a faca que eviscera meu corpo.

Atestado de óbito – carta número três

São Paulo, 9 de julho de 2019

Querido Carlos,

      Hoje eu participei da ressuscitação de mais uma pessoa. A cada compressão eu implorava a qualquer entidade mágica de existência questionável pelo sucesso da ressuscitação.

(Tem pulso?

Sem pulso.

Continue as compressões)

      O paciente voltou. Subiu pra cirurgia. Mas não era pra ser, não sei, e assim, por não ser pra ser, ele morreu.

      Não sei se é a minha fragilidade emocional, se é a carga de estar nessa posição de alguma espécie de curandeiro ou reparador. Talvez a quebra do teu silêncio, talvez a saudade. Não sei o que é, mas desde a sua última carta sempre penso em você quando a morte nos visita na sala de cirurgia, na sala de emergência.

      Sinto-me vazia. A morte vem de um jeito tão natural e tão caprichoso que mal consigo respirar após nossos encontros. E quando choro a morte desses desconhecidos, sinto sua falta. Sempre sinto sua falta.

      A vida é tão estúpida. Você existiu pra mim, eu existi pra você, existimos. Te amei, te amo. Sinto sua falta terrivelmente. E a vida é assim tola porque um dia seremos nós na mesa gelada da sala de cirurgia. No chão da cozinha após um mal súbito. Seremos nós apodrecendo na terra de onde saímos.

Mortos.

Sua última memória de mim

Minha última memória de ti

      Nosso desenlace apesar de não concebido, é final. E esse nosso atravessamento quando estivermos pálidos e abertos na mesa do IML não passará de mais uma história fora dos autos.

      De preto, escondido em um canto, os cheiros das flores do cemitério, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Ou talvez nenhuma lágrima. Será essa a nossa última lembrança?

      Me é quase inaceitável ter vivido uma vida em que existimos e não existimos mais. Uma vida na qual nos tocamos e não nos tocamos mais. Essa vida sadista que acaba com uma hemorragia interna numa sala cheia de médicos. Essa vida ordinária em que a última vez que fazemos algo nunca é a última vez pra nós porque não sabemos que será, enfim, a última vez.

      Queria poder te contar, Carlos, de todas as vidas que vi acabar, ou de todas as pessoas mortas que vejo viverem apenas pelo nosso capricho de não deixá-las morrer.

      Queria poder te abraçar e chorar meus mortos nos teus ombros mas queria não sentir sua falta. Bem sei, bem sabemos, não somos nada e não podemos ser.

      Cansei demais, Carlos. Cansei de existir com a sua não existência, com a minha existência. Cansei dos médicos, da morte e dessa vida desafortunada.

      Estou exausta, querido. Farta de tantas partidas e mortes. E temo, meu amor, nunca mais te ver, nunca mais te encontrar. Me aterroriza morrer sem me lembrar da última vez que nos vimos, sem me lembrar do teu toque caloroso, teu abraço abundante. Temo estar apodrecendo aos poucos, um pouquinho a mais a cada compressão na pele pálida manchada pelo livedo. O vazio se abrindo dentro de mim como um abismo.

      Já estive mais triste, mas nunca estive tão cansada do que são essas nossas vidas.

      Desculpe Carlos, mas hoje eu quero chorar os meus mortos nos teus ombros. Hoje eu não quero mais existir. Hoje eu cansei de viver. Esvazie-me.

Sinto sua falta.

Fatalmente,
sinto sua falta.

Com pesar,

Berenice.

Carta número dois

São Paulo, 20 de junho de 2019

Carlos,

      A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.

      A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?

      E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.

      Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.

      Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.

      Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.

      Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.

      Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.

      Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.

      Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.

      Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.

      Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.

      Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.

      Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.

      Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.

      Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.

      Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.

      Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.

      Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.

      Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.

      Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.

      No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.

Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.

Com carinho,

Berenice.

PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?

Reintegração de posse

São Paulo, 1 de julho de 2019

      Carlos andava pelos corredores do mercado em busca da prateleira de azeite. Não havia muito porque comprar azeite no fim da tarde de uma terça feira, mas estava inquieto em sua casa vazia e então saiu para fumar um cigarro. Um cigarro virou dois e quando percebeu já estava andando pela rua em direção ao mercado.

      Avista a prateleira. Uma mulher loira está parada bem na frente dela, observando os vidros de azeite. Ele espera para que ela saia da frente da prateleira, mas ela se demora demais. Carlos caminha devagar em direção a loira e para a uma distância adequadamente próxima: “Não leve o mais barato, se é isso que você tá pensando” A moça se vira com o susto. Seu nome é Berenice e já sabemos alguma história dela, mas você talvez não se lembre.

      O homem é Carlos, seu ex alguma coisa. Digo alguma coisa pois teriam tido um caso quatro anos atrás, enquanto ela estava infeliz e noiva de um outro homem. Carlos teria um relacionamento de longa data, há mais de seis anos ao menos, com uma outra mulher, praticamente pelo mesmo tempo que Berenice estava com o ex-noivo. O caso não havia como acabar bem, vocês podem imaginar e, por isso mesmo, acabou mal. Berenice desfez seu noivado e fez-se personagem de uma história de partidas e desencontros. Carlos continuou com sua namorada e ele e Berenice pouco se encontraram depois desse acontecimento.

      Carlos constata com um misto de horror, culpa e curiosidade que se trata de Berenice. Seu coração acelera um pouco dentro do peito e suas mãos ficam ligeiramente molhadas.“Você mudou seu cabelo” Berenice ri: você ficou mais careca. Ele ri também, desconfortável. Diz também que perdeu o jeito de menina. Berenice fecha o rosto numa expressão séria e diz que, de fato, já não é mais uma menina há tempos. Ficam parados, na frente da prateleira de azeites, se olhando por alguns minutos dolorosamente silenciosos. Carlos volta a falar, perguntando o que ela faz no supermercado. Ela diz que estava voltando do trabalho na Lapa, parou lá para comprar um vinho e que se percebeu de repente na frente da prateleira de azeite, admirando-os.

      Carlos lhe pergunta se a namorada de seu amigo Eduardo, com quem Berenice mora, ainda compra o azeite mais barato. Ela responde que por pouco ele perdeu esse timing, pois ela havia acabado de se mudar para um novo apartamento, ou pelo menos, se mudaria oficialmente na manhã seguinte. Então não, sem azeites baratos por hora. Diz também que provavelmente o problema era pessoal com ele, porque desde que ela havia se mudado para lá Aurélia nunca mais comprou azeites baratos. Ele ri, ela ri.

      Ela não pergunta a ele o motivo de sua vinda ao supermercado, apenas o observa com o coração batendo rapidamente dentro do peito. Antes que Carlos possa perceber, estará convidando-a para tomar alguma coisa, talvez uma cerveja, ali perto. Berenice sabe que o correto seria recusar, mas não consegue deixar de se indagar o que se daria deste convite ou até mesmo porque o destino havia os colocado neste encontro vulgar.

      Aceita. Eles vão ao caixa, ele de mãos vazias e ela com um espumante caro nas mãos. Ela paga e guarda a bebida em sua bolsa preta. Em poucos minutos estarão sentados em algum bar na região, incapazes de não conversar demais como era de costume. Ele acende um cigarro e pergunta a ela se ela gostaria de um. Ela observa o cigarro em sua mão, demoradamente. Balança a cabeça como quem diz não. A conversa prossegue, a cerveja continua chegando, ele continua acendendo mais cigarros e mesmo assim o maço parece não ter fim. Dentro de algumas horas estarão levemente bêbados, ou bêbados o suficiente para acessar o passado mútuo, sempre e apenas, acessado nesses momentos de embriaguez.

      Ela pergunta se ele ainda está com Beatriz. Ele diz que sim, que mora com ela, na mesma casinha com o pequeno quintal ali perto. Ele pergunta se ela ainda é solteira. Ela dá os ombros. Alguns minutos no silêncio, olhos nos olhos, mãos próximas demais uma da outra. Ele delicadamente toca na mão dela e ela sente o calor conhecido das mãos dele.

“Eu te entendo agora, Carlos”.

“E por que agora?”

      Ela ergue os ombros como quem diz que não importa, ou que não sabe. Ele pousa seus olhos no chão, em uma carcaça de barata na entrada do bar, respira fundo e balança a cabeça

“Me desculpe”

“Não há mais culpa entre nós, Carlos”

      Ele se aproxima mais de Berenice, passa a mão delicadamente no seu rosto, em seu queixo. Ela sorri tristemente enquanto ele ri com uma risada rouca, cínica, triste mas não completamente triste. Beija a testa dela, como costumava fazer. Ela repousa a cabeça em seu peito e sente o cheiro de arruda e cigarros, inalando-o lentamente, pausadamente. “Tenho medo de você se afogar em mim” ele diz. Ainda sem tirar a cabeça de seu peito ela diz que não há nada para temer, porque amanhã tudo isso será mentira. Ele ergue sua cabeça, segurando pela lateral do rosto e olha para sua boca como se pudesse engolir todo seu desespero**. Acariciando levemente seu queixo a beija docemente, com a língua começando pela lateral da boca, como deve ser.

      Em meia hora o bar terá fechado. Eles caminharão lentamente e embriagados até a casa vazia de Carlos. Ele irá colocar um copo de whisky para ele e um para ela. A gata preta recém adotada fica durante todo o tempo no colo de Berenice, ronronando satisfeita. O whisky se vai mais rápido do que eles poderiam prever. A gata desce do colo de Berenice porque logo ela e Carlos estarão nus, beijando-se em agonia, angústia, aflição e lascívia. Ela em cima dele, cavalgando lentamente. Mãos quentes, coxas violentas, juntos no limite do insuportável, num incêndio moribundo. Noite adentro, se consomem como numa performance masoquista, ouvindo os pássaros cantarem impiedosamente marcando o fim desse desenlace amargo e definitivo.

      Pela manhã Berenice acordará mais cedo que Carlos. Deixará um bilhete de despedida em cima do travesseiro. A gata irá segui-la pela casa, enquanto ela recolhe suas roupas, se veste, bebe um copo de água e esquece sua calcinha escondida no vão do sofá. Abre a porta e a gata continua ronronando em seus pés.

      Ela pára e observa a casa. Observa os retratos de Carlos e Beatriz, observa o lar deles maculado pelo pecado de dois amantes irremediavelmente quebrados, imprudentes e equivocados. Ela pensa em todas as partidas, pensa em todos os rastros deixados por ele nas entranhas do seu corpo. Pensa na andorinha de porcelana solitária pendurada na parede de seu quarto, em seu novo apartamento.

      Com delicadeza, pega a gata, a põe em seu colo como uma criança faria e sai da casa, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Em algumas horas, Carlos acordará e lerá o bilhete de despedida. “Nos vemos no inferno, querido”. Notará o sumiço da gata dentro de uma hora, mais ou menos, e ao perceber, soltará um riso amargo, mas satisfeito e acende um cigarro.

      Queima lentamente o bilhete e assiste o fogo consumir essa história que finalmente chega ao seu destino absoluto.

*Disque 192

**Traguei saturno

Um arremate

São Paulo, 21 de junho de 2019

eu gosto do teu silêncio
rasgando meu corpo
eu gosto da tua ausência
esvaziando-me

me enrolo nos teus silêncios
afasta os maus espíritos

imaculada para que a despedida seja final

cabal
um arremate.

não tocar-te
não reconhecer tua pessoa
engolir tua partida
aceitar a faca me cortando a distância

eu te disse que não era assim que nos salvaríamos
mas é.
foi.

a saudade ainda me dilacera porque é difícil demais não desejar tuas mãos quentes e principalmente tuas palavras doces, nossos segredos

hipoteticamente
virtual
fictício.
desejo teórico,

desses que não devem ser
não podem ser
não queremos que seja

não quero que seja

partimos e, pela última vez,
adeus.

it tears me apart

São Paulo, 20 de junho de 2019

volta
na calada da noite
mãos quentes e macias
eu quero que você volte
volte com o desejo de quem fica

volta
cria nosso desejo
incita minha violência
arrebata minha alma

volta
mas dessa vez pra ficar
volta e me convence a voltar

seja comigo o que eu fui por você
pra voltar a ser
ser a volta que deveríamos ter tido
volta pra me distrair do fracasso de você não voltar

volta pra me fazer querer ficar
[sem você]

“não tem nada mais forte do que as coisas que não aconteceram”

São Paulo, 4 de junho de 2019

{Carlos}

porra, Carlos, é difícil demais.

há infinitos jeitos de não nos encontrarmos, infinitos jeitos de não nos encontrar, infinitos jeitos de não te encontrar, não me encontrar.

infinitos jeitos, mas nada disso importa porque é difícil demais viver depois da nossa catástrofe, dos seus versos duros, da sua prosa provocante, dos seus golpes delicados. é difícil demais.

não consigo parar de pensar que de vez em quando a embriaguez me leva perto do abismo que é me tornar uma pessoa como você. eu não suporto o medo de me deparar um dia com meus próprios versos duros e minha prosa provocante.

mas já está, está feito porque apesar de todas as minhas tentativas de arrancar de mim essa contaminação eu já sou mais como você do que eu poderia imaginar.

você dizia que a nossa dança nos definia mais do que podíamos admitir. esse era o prelúdio do fim, antes mesmo de começar. você me avisou, eu sei.

mas agora percebo que nessa sua constatação tudo já estava previsto. nossos corpos mortos na beira da estrada não era apenas um delírio embebido na sua culpa, era um plano. e morremos. ao menos, morri. levanto do meu túmulo todos os dias, caminho pela terra ora como cadáver, ora como uma boneca de porcelana que se quebrou e se colou vezes demais.

ando pela terra deixando meu rastro, que pensava ser outro tipo de rastro, mas receio que seja destruição, como você.

nossa antiga dança me define mais do que eu posso admitir.

cada dia que passa me aproximo cada vez mais das histórias de cobras e feitiços. danço perigosamente com algumas pessoas só porque eu posso, assim como você. às vezes beijo as caprichosamente, inconsequentemente. elas dizem que não há porque a preocupação, elas não vão se magoar. elas já estão quebradas e não podem se quebrar mais.

mas nós dois sabemos que isso é mentira, não é, Carlos?

[…]

{Amadeu}

“eu e você e uma cidade vazia. talvez seja feriado, talvez seja o arrebatamento”

chego na festa e desvio meus olhos para que eu não te infecte com os meus desejos inapropriados. você me vê, ri, rimos e me abraça desajeitado. em algumas horas estaremos bêbados, dizendo impropriedades um para o outro. você flerta, eu flerto, depois você me pergunta se flertamos mas digo que não. você se satisfaz com essa resposta porque é terrível demais me ler como a bruxa que eu poderia ser. mas não consigo parar, não consigo não pegar outro cigarro. mas sabemos como termina essa história, ou eu sei. e, verdadeiramente não quero morrer mais uma vez na beira da estrada, sozinha, escalpelada. um abismo com nossos ossos descompondo-se ao fundo. ou talvez só os meus, porque eu sou só inocente demais, burra demais, auto-destrutiva demais e talvez você seja imune ao meu feitiço. mesmo assim, você continua a sorrir e se embrenhar nos meus espinhos afiados, nas minhas palavras levianas. eu e você juntos no limite do imperdoável, eu e você juntos em um fumacê venenoso. e então a conversa continua, o maço se vai, e a saideira nunca chega.

{Carlos}

achei que haviam colocado fim no furacão que virei depois de você Carlos, e porra, que medo que eu tenho de continuar desequilibrada.

teus passos estão logo antes dos meus e os meus seguem os teus como se o demônio estivesse rindo de mim secretamente, arquitetando cada segundo da minha derrocada, enquanto eu ainda penso na sua canalhice pelo menos uma vez por semana.

minha voz está trancada dentro desse corpo que você bem conhece e eu as vezes preciso roubar seus versos duros para arrancar de mim a angústia. por isso eu não peço desculpas. você tomou de mim, muito mais do que eu poderia dar e a vingança é tanto uma ilusão quanto nós fomos. tudo que me resta são as lembranças esvaecendo a cada segundo, no meu cérebro que inevitavelmente se encaminha para o alheamento total.

te odeio tanto. ódio do seu rosto doce, dos seus olhos quentes, da sua conversa perigosa, da sua pele escorregadia. mas eu não sou escorregadia. pedaços de mim grudam em todas os lugares, meus cabelos ficam enrolados nas entranhas do assoalho, da cama, da mesa de bar.

tenho ódio do seu veneno agridoce, da lavanda e da arruda na sua pele. mas meu veneno não foi elaborado com tanto esmero quanto o seu. o que eu elimino é na verdade um remédio de sabor amargo que já não se presta a humanidade como deveria. benigno, tratável.

é perigoso que eu seja tentada a seguir teus passos.

não posso.

{Amadeu}

“se perder agora é perder tudo que está adiante”

vá embora. por favor, vá embora. eu não posso me tornar meu próprio algoz. eu não posso me destruir. eu preciso ser feliz, preciso saber que meu carrasco não me destruiu para sempre, não me moldou para ser uma imitação fajuta dele. saber que isso não é uma profecia.

você diz que somos amigos, mas temo por você e por mim porque não consigo dizer se não há laivos de mentira no timbre da sua voz. somente são circunstâncias da vida que nos unem e a eletricidade existe porque o demônio gosta da luxúria. mas não é isso exatamente que você quer, é?

meu corpo marcado pelas estrias e manchas, meu corpo desajustado socialmente, minhas coxas violentas, minha buceta quente e proibida, minha boca de esculápio desvairada. não é isso que você quer.

repita comigo: não seremos o arrebatamento. e este não é o apocalipse.

girl in red

São Paulo, 23 de maio de 2019

eu gosto de você
porque sua barba te cai de um jeito juvenil
o jeito que você fala comigo
despretensioso

(esse poema é horrível)

mas não consigo parar de imaginar seu corpo no meu

you could be my girl

eu sei o que você pensa
o que você deseja
e, meu deus, vou me arrepender dessas palavras amanhã
mas saiba isso existe
eu não sou louca, sabe?
só sou inconveniente
por pensar na minha pele encostando na sua

mas veja bem,
tudo isso está agora
e quem você pensa que é pra me distrair?
nessa nossa dança absurda
essa nossa dança proibida

esse é meu pior poema
essa é minha derrocada

te quero
e não te pertenço

there is this feeling — carta número um

São Paulo, 18 de abril de 2019

{preâmbulo: essa carta é terrivelmente ruim}

Prezado Carlos,

      Antes de começarmos de fato esta carta (eu de escrevê-la e você de lê-la) eu queria, com honestidade, pedir desculpas por mais um desses meus disparates literários. Não que isso vá fazer alguma diferença, porque você provavelmente já não os lê há muito, muito tempo. Mas de qualquer forma, fica ai o pedido de desculpas.

      Além disso, te peço desculpas pelo fato de que, mais uma vez, cá estou eu, com meu nível de consciência alterado pelos meus remédios hipnóticos escrevendo uma carta. Talvez as desculpas sejam não só para você, que está sendo ativamente vítima dessa carta em específico, mas para todos os meus leitores (se é que tenho leitores) que já leram meus textos inspirados pela depressão do sistema nervoso central.

      De qualquer forma, desculpas a parte, te escrevo porque estou com um probleminha e acredito que talvez você possa me ajudar porque de certa forma esse problema começou com você. Daí, acabei pensando, o que custa tentar descobrir se há algo que você possa me dizer a respeito do problema? Ou talvez, o que custa escrever sobre o problema e talvez encontrar uma solução na transformação do problema em palavras?

      Por favor não se sinta pressionado a me consolar ou não leia essa carta com esses seus olhos castanhos melancólicos como que dizem “oh, coitada, mais uma vez lá está ela, querendo coisas de mim”. Não, não, dessa vez é diferente. Isso é puramente um experimento psicanalítico, ou psicológico ou um exercício literário, ou qualquer coisa que não envolva sua cara melancólica.

      A questão é: você chora?

      Eu sei que você sofre.

      Mas eu realmente não sei se você chora. Digo, lágrimas reais, escorrendo pelo seu rosto sardento. Já te vi com essa cara de melancolia que sugava toda a felicidade da minha alma, e é praticamente só essa cara que eu lembro de ver você fazendo ao olhar pra mim, especialmente depois do sexo.

(A culpa é um troço poderoso, não é mesmo?)
      Mas não, não isso. Eu to falando do “real deal”, chorar mesmo. Aquele choro que parece um vulcão de lágrimas te limpando por dentro. Você chora?

      Por que sabe, eu chorava. Nossa, como eu chorava. Inclusive, eu chorei tanto por você que dava pra pegar aquela música da Clarice Falcão “O que eu bebi” e trocar “bebi” por “chorei” em todas as estrofes e só ai daria pra dizer o quanto eu chorei por você.

      Enfim… Eventualmente eu parei de chorar por você porque parecia que meus olhos já tinham se resignado com o fato de que eu e você nunca haveríamos de ser e, nossa, graças a deus, né?

      Sem ofensas, mas você é um puta de um canalha aleijado afetivamente e eu sou uma mulher completamente doida que, como diriam os portugueses, nem ao menos saiu completamente dos cueiros. Que bem essa união estúpida e luxuriosa traria? De qualquer modo, o que importa é que essas lágrimas secaram. E agora estamos todos bem, muito bem, bem distantes e bem.

      Mas que surpresa eu não tive quando eu percebi que não foram só aquelas lágrimas que secaram?

      Eu ainda choro de desespero. Eu ainda choro de raiva. Eu ainda choro quando alguém incita minhas questões psicológicas básicas. Sim, essas lágrimas ainda existem.

      Mas não choro mais de tristeza. Aquela boa e velha melancolia, devoradora de órgãos, que abre vazios imensos dentro da gente… Sabe? Essa dor. Essa dor eu não consigo mais sentir. As lágrimas que saem dessa dor, aliviando essa dor, costurando todos os órgãos abatidos, clareando as idéias, elevando meus afetos pra planos de consciência… Essas lágrimas… Não.

      Eu sinto um nada. Um nada que eu carinhosamente nomeei como nada presta. O nome é bem auto-explicativo, sabe? Uma sensação de que apenas nada, nada presta. Nada é nada. Nenhum sentimento é algum sentimento.

      E é horrível. Avassalador. São alguns períodos de extrema maluquice nos quais eu não consigo sentir nada e ao mesmo tempo eu me sinto absolutamente horrível. E o pior de tudo é que eu sei que se eu chorasse. Se eu chorasse… Estaria feito. Estaria terminado. Eu poderia terminar o ciclo de afetos e mastigar minha tristeza, ruminá-la e engoli-la e finalmente dar um fim a ela, ou dar a ela um lugar nos neurônios do meu hipocampo… Mas não, não consigo chorar e não consigo dar fim a essa merda de tristeza e ela fica lá, encapsulada, em algum lugar dentro do meu estômago e eu não consigo tocá-la o suficiente para entendê-la e elevar pra planos mais altos da minha consciência. Lá ela fica. Me corroendo aos poucos, sem que eu ao menos saiba o que é essa tristeza. O que é que faz com que eu me sinta tão vazia? O que é que faz com que eu me sinta tão morta?

      As vezes, só as vezes, eu sinto como se você tivesse me matado. Que eu esteja me transformando um pouco nessa minha leitura sua de que você é um aleijado afetivo. Tipo uma maldição, sabe? Nos enroscamos e algum pedaço de você grudou na minha alma e… Ah, sei lá.

      Você é o ponto de partida do problema, vê? Nada do resto importa. Não me importa absolutamente nem um pouco quaisquer dúvidas que tenham ficado. Qualquer rancor, nada. É claro que esse resto está ai, está aqui dentro de mim, mas coloquemos de lado, tá bem? Esquece isso tudo, essa história toda e… Foca no meu problema.

      Essa carta já tem muito mais palavras do que eu gostaria de trocar com você pelo resto da minha vida então, vou ao que interessa:

      Você chora? E se você chora, por favor, você pode me ensinar a chorar de novo? Se você não chora… Bem, daí talvez eu preciso que você me ensine uma outra forma de lidar com tudo isso que não envolva chorar.

      Parece demais. É demais, na verdade. Toda essa carta, esse contato, essas palavras todas sendo que entre nós não deveria haver mais nada além de silêncio e ignorância mútua da existência alheia. É demais, eu sei. Mas, sabe, depois de tudo houve entre nós, tudo aquilo que há alguns parágrafos eu pedi para que você deixasse de lado? Veja.

      Cá entre nós… Você me deve uma, você não acha?

      Tell me how to cry again,

Atenciosamente,

Berenice.

suposta apresentação repetida do demônio ao espírito

São Paulo, 14 de março de 2019

perdida num rastro teu que já não há
abismo cibernético de suas pistas falsas
nessa tarde de quinta feira molhada
enjoada
anafilática

apego exagerado a um sentimento ou uma ideia desarrazoada

motivação irresistível para realizar um ato irracional
compulsão
de procurar teu nome
procurar teu obituário nos jornais da semana

transe obsessivo compulsivo
impertinencia
despropósito todo esse tempo perdido com algo que já não há

você não há

e há muito tempo me impeço de
ver-te
ver-me
ver-nos

e a obsessão chega pontualmente em alguns dias da semana talvez algumas vezes por mês e quem sabe somente alguns dias no semestre

começo novamente a me perguntar sobre todos as não-respostas as não-perguntas os não-olhares as não-verdades as não-mentiras

mas talvez seja por isso

preciso saber
minha neurose desagradável de entender
estabelecer por quais meios nos tornamos o que tornamos e des-tornamos
de uma vez por todas
saber o quanto você é aquilo que me deixou saber que era

mais uma estupidez em versos

mas não perca teu tempo com mais esse disparate
não porque me importe você
mas porque me importa o que penso de mim

e a personalidade anancástica me grita
que isso é um erro.
é uma falha.
imperfeição.

ainda escrever
sobre
e

você.

you burn me

São Paulo, 30 de janeiro de 2019

essas noites solitárias, após tomar o meu calmante, sei que vou fumar um cigarro ou outro, com a cabeça preenchida por lembranças desagradáveis e falsas saudades de ti.

i can’t unlove you.

não é como se ainda te amasse, mas há um eco repulsivo. em noites solitárias. em noites de calmante.

nessas noites eu bebo goles curtos e amargos de remorso, de rancor, de saudade agridoce.

já a tempos extirpei de dentro de mim a sua forma humana, os conteúdos da sua alma, o ardor do seu toque.

agora aguardo por outro homem pela manhã, não por você. aquele que me salvou de mim mesma. agora posso ligar para ele e dizer: querido, te amo e não posso parar.

resta essa escrita truncada, ébria, colocada, depressiva, fugaz. podemos nos sentar no divã e analisar todos os fatos, não fatos, sentimentos e não sentimentos e não chegaremos a lugar nenhum.

não cheguei.

você chegou?

afetos

{voice-over: um dos três tipos de função mental, que se dividem em afeto, cognição e volição}

afetos

não consigo discernir porque os outros se foram e você não.

mas amo outro homem agora, como se minha alma dependesse disso.

Eu te escrevo e você não me lê — um flashback

São Paulo, 8 de setembro de 2018

      não é época de frio, mas deve-se começar como no último outono: você pensa em mim como penso em você?

      me disseram que esse som é do bem-te-vi, esse pássaro desgraçado atraído pelo mofo do seu armário que corrói as entranhas de todo mundo nessa casa. com você meu gozo dói e as mentiras derretem o papel conforme você recita seus versos como um sussurro no fundo da minha cabeça. os meus gemidos, o silêncio da sua culpa sufocado pela violência das minhas coxas, meus gritos de angústia madrugada adentro, os gemidos da tua mulher deitada na vossa cama, seus braços entrelaçados nos dela enquanto meu peito se enche de pedaços podres seus perfurando minhas entranhas nas noites que sufocam a esperança de você ter sido engolido pelo tempo. a impossibilidade do toque causador da sua morte trazem a notícia: você não pensa em mim como penso em você porque a garganta cheia de ódio como uma navalha pronta pra abrir seu peito e devorar seu coração é só dentro do meu ventre.

      a garota dentro de mim queria suas mãos suavemente repousando nos meus seios e a fêmea faminta ainda quer sua carne e

dilacerar,

despedaçar,

incendiar.

assim como está, não morreremos juntos, já que juntos nunca estivemos.

morrerá sozinho como uma raposa faminta quando já não sobrarem mais galinhas

frágeis

estúpidas

todas estarão mortas ou avisadas

e para sua redenção o punhal deverá ser da tua senhora.

Samba da treze de maio

São Paulo, 15 de agosto de 2018

      O samba da treze toca ao fundo enquanto eu e ele estamos sentados na mesa do bar, em uma proximidade excessiva demais para qualquer telespectador mais amargurado.

      Aquele amigo dele do outro dia de repente aparece, eles trocam algumas palavras (talvez mais que algumas) enquanto eu dou cinco ou seis bocejos. É dificílimo encontrar esses amigos, esses que te conhecem. É sempre aquele mesmo diálogo: me perguntam se nos conhecemos, de onde, se somos amigos. Eu sorrio, esse meu sorriso jururu que você bem conhece. A bile sobe pela minha garganta, começo a elaborar a mesma mentira de sempre e logo vem o flashback do nosso último encontro, meus lábios quentes no seu pescoço, minhas lágrimas escorrendo timidamente e as palavras que nunca te disse: “Eu te amo, mas você parte meu coração”.

      O sorriso jururu continua enquanto respondo seu amigo com a violenta sinceridade da mentira de que sim, nós nos conhecemos, but i barely know you.

Pimentão Vermelho

São Paulo, 4 de junho de 2018

o sol entra duro pela janela e a madeira do chão range sob as patas do meu gato

ele procura no assoalho um rastro,

teu rastro

talvez

eu digo a ele que nada restou

nada

(!)

(deixe disso, gato)

(!)

nem ao menos seu cheiro nessa casa eu sinto mais

(graças a deus)

nem ao menos escrever consigo mais

(a menos que…)

só se soltam dos meus dedos despedidas, partidas, espinhos e serpentes mortas

e agora a casa está novamente de pé, novos retratos nas paredes, alguns pimentões vermelhos na geladeira e de vez em quando abraços durante uma partida de futebol

minha língua trava e enrola e para isso não tenho poemas nem contos ou cartas

me livrei do seu cigarro velho já tem uma semana e o hábito não parece me fazer falta mas ainda assim me custa acreditar que a inspiração persista

você

que desgraça

não poderia pedir por uma personagem pior

mas ai está

o sol duro entrando pela janela

o maço cheio

o gato arranhando o sofá

e palavras carregadas do que restou dos nós:

deus queira que sua queda seja como você merece

Exercício de Telepatia

São Paulo, 15 de abril de 2018

      Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.

      Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.

      Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.

      É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.

      As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.

      Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.

divagações sobre a eleição de governadores em 2018

São Paulo, 20 de março de 2018

ela é uma gracinha

gosta de poesia

sensível

você diz que não tinham assunto e eu me pergunto como não, como não?

você nem suas dúvidas me pertencem mais, graças a deus, mas não consigo deixar de imaginar como esse seu romance não deu certo

desculpe a intromissão, mas acho que talvez tenham terminado por causa do suplicy

Flashback

São Paulo, 2 de março de 2018

      Carlos foi embora há três meses mas seu cheiro permanece no quarto da frente mumuficado engasgado impregnado. Victor me sugeriu passar álcool gel clorexidina removedor. Deixa o quarto asséptico ele disse eu dou risada trago mais uma vez o cigarro e penso no cheiro do virginiano que eu custei a gostar mas gosto e as lágrimas não vem está tudo seco a garganta desesperada por alívio e já nem é mais culpa da amidalite que me matou semana passada.

      Não quero que ninguém leia isso.

      Eu quero que você saia daqui, igual escreveu a poetisa que se suicidou enfiando a cabeça dentro do forno enquanto as filhas dormiam dopadas de xarope no quarto ao lado. Tudo se resume ao quarto ao lado abre a porta fecha a porta será que se eu abrir a janela o cheiro vai embora?

      A terapeuta nova anda remexendo no baú do ano passado e me dá agonia lembrar pensar falar as vezes o silêncio enterra tão bem o cheiro, será que eu aguento desenterrar tudo?

      Alguém fumou um cigarro de tabaco orgânico na varanda e deixou a bituca displicentemente no cinzeiro enferrujado eu tenho uns cinquenta relatórios pra corrigir um jantar desagradável na noite de sexta-feira interferindo nos meus planos de trepar a noite toda enquanto faço um rehab do ar me contorcendo na terra dos outros.

{Unrelated: tenho medo de vacilar com ele porque eu sei que vai demorar uns noventa anos pra me perdoar e me aflige tudo isso porque não temos todo esse tempo, ninguém tem}

      Esse texto já virou um fluxo de consciência esquisito não sei se vale a pena continuar porque tudo que eu queria era dormir e os relatórios estão me chamando, tem louça pra lavar e parece que essa semana tudo deu pra não fazer sentido. Pensa só: a carta de Berenice saiu no jornal da faculdade com meses de atraso e sem o post scriptum importantíssimo escrito na esperança de ser computado pela cabecinha avoada do meu ex-amante. Perdeu um pouco a graça.

      Já faz tanto tempo, nem faz mais sentido e me envergonha relembrar. O orgulho é um sentimento muito imbecil como você mesmo disse mas a terapeuta pediu uma copia da carta e me estranha alguém querer ler minhas coisas com propósito diagnóstico, você não acha?

      Eu quero que você termine de ir embora.

      Venha buscar o livro que você deixou em cima do aparador, venha, e aproveite a oportunidade pra fazer uma feitiçaria que destrua as lembranças reprimidas. Confesso que pensei de trocar o Lucky Strike pelo Camel Azul é mais barato etc e tal mas preferem me beijar sentindo o gosto do mentolado e com isso não posso fazer nada além de concordar.

      Espero que seus pássaros estejam bem. Os daqui já desistiram de cantar.

amanhã tudo isso pode ser mentira

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

eu não consigo escrever um poema sobre você porque minha pele não rasga quando você me toca (ainda)

eu não queimo quando você me abraça e seu cheiro não me atazana a cabeça, não quebra não doí não fere

também não transcendentaliza e não incendeia mas nada disso importa quando a madeira já apodreceu desde a última catástrofe

devagar devagar devagar lento delicado eu não posso ter pernas violentas contigo porque seu relógio biológico é invertido mas não tem problema porque você parece que veio pra botar limite no furacão que eu virei

mesmo assim eu te atinjo a duzentos quilômetros por hora enquanto a luz da mamba brilha nos nossos olhos dilatados e te digo coisas impensáveis imprudentes esperando o silêncio dilacerante mas sua boca abre e eu vejo as palavras saindo sobrevoando me atingindo no meio do peito como os afagos que você me faz quando dormimos juntos

já te avisei mil vezes que eu sou dessas mergulhadoras profissionais
me entrego completamente pra todo mundo que me toca
então
hoje sou totalmente sua e amanhã serei totalmente dela
enquanto ainda tô tentando resgatar pedaços meus perdidos pelos caminhos desconexos de perdizes

se você aguentar a violência do meu barulho eu sou tua hoje sim e na próxima sexta

meu cheiro vai ficar no teu colchão
meu cheiro vai voltar toda vez que você ver alguém fumando um lucky mentolado porque meus cabelos grudam em todos os cantos

eu gosto de deixar um rastro profundo daqueles que riscam o assoalho novo e não saem nunca mais

eu sou louca, sabia?

dai você diz que é tarde demais pra fugir da minha insanidade, do meu clichê literário e eu sorrio porque não suporto fugitivos

a intensidade cresce exponencialmente enquanto você continuar tocando minha música favorita não diga que eu não avisei eu sou incansável

desliga num estalar de dedos

rascunho de semanas atrás

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

silêncio silêncio silêncio
gestos
poemas
meus gritos e cartas palavras tantas palavras faz tanto tempo tanto
o relógio
algo sem começo sem meio com fim o calor do verão seca minhas lagrimas o sentimento burro as vezes ainda grita esperneia
não faz isso comigo
me esquece
me deixa
acaba
como deveria ter sido deveria não ter sido
meus ventos de outono tinham te pedido não faz isso comigo eu suplico te suplico
eu grito pra você
paixão paixão paixão
não faz isso comigo
eu sou muito barulho
não fazia parte do seu plano essa mulher
“desencontros acontecem o tempo todo”
meu deus, como eu gosto de você /interrogação/
nem nos meus sonhos te vejo
como eu desperto, Carlos?
o que eu faço com o gato, Carlos?
mata
mata
mata
que andar do inferno nós estamos?
qual o rastro que você deixa?
eu sei o meu.

último ato

São Paulo, 12 de novembro de 2017

enquanto a cortina de fumaça desce anunciando o fim do espetáculo
percebo perplexa ser o animal que volta toda primavera
então o silêncio me derruba
e como numa tragédia barroca
me debato no chão perdendo minhas penas escuras
porque voltar agora foi quebrar-se novamente
e quando o verão chegar será tarde demais

me asfixio no seu cheiro de sol
esperando o apocalipse
me rasga me fere me mata
o seu cheiro de sol
me quebra me destrói estilhaça
a sua ausência

os espectadores todos já se foram
ao passo que me mantenho aqui
presa na minha própria jaula de palavras
ditas, não ditas, metralhadas
nos meus anseios sufocantes
nas grades do teu silêncio
enroscada nos espinhos dos teus duros versos

implacável
você fecha a porta atrás de si
pois não há
não existe
nenhum cenário no qual você me entrega qualquer um dos meus desejos
e agora percebo

talvez eu não possa
não consiga
ficar aqui enquanto a procissão se aproxima
o himeneu dando o último golpe
por isso é necessário terminar de dilacerar o pássaro índigo
fixo na parede ou estilhaçado na sua direção
tanto faz

porque é inútil e pesado demais pra você
a minha paixão
e é pesado demais pra mim
a sua inclemência

agora está tarde
não há mais tempo e talvez nunca tenha havido
o relógio bate a hora da morte
mas não se aflija
no meu funeral
você é convidado de honra.

Exercício de desapego

São Paulo, 4 de novembro de 2017

      E no seu quarto vermelho, te observando dormir, eu percebo o quanto estranha é essa sensação de dormir na casa de semi-desconhecidos.

      Seus olhos não fecham completamente enquanto você dorme e parada assim, sob a luz vermelha da sua lanterna alemã, é quase como se você estivesse morta. Mas eu sinto seu coração batendo na minha não apoiada no seu tórax, sinto seu peito subir e descer, ouço seu ronco e a ideia mórbida logo desaparece.

      Amanhã meu despertador vai tocar as sete horas e eu estarei saindo pela porta rápido demais. Riremos dos gatos que ficaram pulando na cama enquanto transávamos, você me dá adeus e promete não sumir entre beijos desajustados pelo fato de eu ter escovado os dentes e você não.

      Não nos conhecemos de verdade e é praticamente impossível escrever um conto sobre alguém cujo sobrenome eu esqueci. Acho curioso que seu nome seja o mesmo da minha amiga que mora a duas quadras da sua casa. Acho curioso você morar em uma encruzilhada na Santa Cecília.

      Finalmente me levanto da cama, te acordo sem querer e digo que vou fumar um cigarro. Você continua na cama, sonolenta. Eu não consigo dormir.

      Parada na frente da sua janela, percebo que aqui não há barulho de pássaros de madrugada. Você me diz ah, o centro tem poucas árvores para os pássaros. E apesar da árvore gigantesca na frente do seu prédio, aqui os pássaros não cantam.

sim, já é tarde

São Paulo, 1 de novembro de 2017

você quer que eu acorde agora, querido?
é isso?
você acha que será assim o meu despertar
com a sua faca cortando minha pele à distância?

porque corta justamente por isso
mas você sabe, não sabe?

você não entende
e nunca vai entender
não é assim que nos salvamos
e não é assim
que eu me salvo
ou você se salva

os gritos ecoam noite a dentro
meus gritos
(você não grita, grita?)
e a ferida nunca fechará
porque a saudade
me dilacera
cada parte de mim derrete esfarela estilhaça
cada dia mais
cada vez mais

e quanto mais distante de você
mais perto fica
o meu funeral

Guarda Compartilhada

São Paulo, 24 de outubro de 2017

Querido Carlos,

      Te envio essa carta por conta de um probleminha doméstico com o qual venho tendo que lidar ultimamente e acredito ser do seu interesse.

      Você se lembra daquele dia? Estávamos juntos no seu bar favorito e encontramos um filhote de gato abandonado. Bêbados, descuidados, resolvemos adotá-lo juntos: ele fica uma semana na casa de cada um, você disse, uma guarda compartilhada. Eu fiquei a primeira semana com o gato e, bem…

      Acontece o seguinte: já fazem semanas que não nos vemos e o gato aqui. Aliás, quando de fato nos encontramos, nunca falamos sobre ele. Confesso ter vontade de discutir essa questão quando te vejo, as vezes até entro em um certo desespero de madrugada, ou quando fico bêbada demais e é preciso muita força de vontade pra não te ligar e dizer mas e o gato, Carlos? E o gato? Que diabo faço com o gato? No fim das contas não inicio a conversa sobre ele porque todas as vezes nas quais tentei introduzir o assunto acabei sufocada pelo seu silêncio. E tudo bem, tudo bem, sei do seu apreço pelo silêncio e o respeito, então nada de conversas sobre o gato.

      Por isso a carta. Cartas são boas porque você pode lê-las, abandoná-las no criado mudo, pensar em uma resposta e até não respondê-las, porque sabe como é, nem se mandam mais cartas nos dias de hoje, quem sabe não foi extraviada?

      De qualquer modo, passo pouco tempo em casa, não é sempre que lembro do gato, mas seria absurdo dizer ah, não, nunca penso no gato, que gato?Afinal de contas, eu cuido dele. Enquanto sozinha, as vezes embriagada, as vezes quando durmo na cama de outra pessoa, de fato penso no gato. Aliás, como não pensar no gato se ele está sempre ali, parado, me olhando, andando pela casa? Chego do trabalho, cansada, deito na cama sem nem escovar os dentes e puf, o gato pula em cima de mim ronronando, me tirando o sono completamente.

      E, bom, você sabe como são os gatos, especialmente este. Calado, esquivo, aqueles olhinhos amendoados e hipnotizantes só me esperando fazer algo, esperando eu me deslocar para acaricia-lo, só para depois fugir graciosamente do toque das minhas mãos. E eu aqui, esperando por ele também, esperando pelo toque suave das patinhas em cima das minhas costas quando ele decide subitamente dormir comigo numa noite fresca de primavera.

      Não consigo me decidir, de maneira alguma, (apesar de talvez já estar decidida em cuidar dele desde o primeiro momento no qual o avistei) se devo continuar a alimentá-lo ou se devo mandá-lo as favas de uma vez por todas.

      Quando compartilho esse meu dilema com algumas pessoas, ouço as dizer que se você realmente fosse afeiçoado ao gato, se você realmente visse uma vantagem em manter o gato vivo, saudável e feliz, você buscaria o gato de vez em quando. Talvez não semana sim, semana não, como no nosso combinado ébrio e imprudente, mas só de vez em quando. Mas você não vem, então provavelmente é porque não quer de forma alguma vir. É isso que dizem e eu custo em acreditar porque realmente me afeiçoei ao gato. E eu digo ah, mas vejam, ele cria passarinhos em casa e talvez não seja sensato mesmo levar o gato para lá. São lindos os seus pássaros, você cuida muito bem deles e imagine a tragédia se o gato acabasse transformando algum em jantar. Você nunca se perdoaria, não é?

      Então prefiro acreditar que sua hesitação intermitente com o gato não seja pelo fato de não querer mais o gato de forma alguma, não seja pelo desespero em se livrar o mais rápido possível dele, seja apenas porque… Bom, claro, eu entendo, talvez já seja mais do que tarde para livrar-se dele, enfim.

      Mas sabe como é, que desperdício! Livrar-se dele agora é como… desistir, talvez? E você sabe dessa minha dificuldade egóica de desistir, eu sempre acredito na alcançabilidade das coisas, por mais ingratas as tentativas, por mais sem esperanças, é difícil demais, penoso demais, apenas abandonar uma tarefa, um objetivo, um… um gato!

      Não é sempre que se encontra um gato como esses, você sabe. Um gato não simplesmente encontrado, mas que encontramos. Ainda mais eu! Sempre estranhei gatos, nunca me achei capaz de gostar desse tipo de bicho.

      Entretanto, talvez seja tempo, talvez seja tarde, talvez seja imprescindível que eu abandone o gato mesmo não querendo em absoluto.

      Já me alonguei demais, peço desculpas pela carta, pelo incômodo e, enfim, pelo gato. Termino quase com uma súplica: por favor, não me obrigue a me livrar dele. Entendo a racionalidade em fazer isso, mas acredito na possibilidade de abrir mão da racionalidade eventualmente porque nunca se sabe, não é? Gatos são comportados, não dão tanto trabalho. Comida, água e pequenos agrados são o suficiente para deixá-los vivos e felizes por longos anos, sem de fato incomodar ninguém. Posso cuidar dele enquanto isso, enquanto você não achar prudente exercitar a guarda compartilhada e, se não for demais, passe de vez em quando aqui em casa para acariciá-lo, ele não vai te ferir e, sabe, ele sente sua falta.

Com amor,

Berenice.

PS: Planejei abandoná-lo naquela encruzilhada perto da casa da sua tia, no feriado de finados, na esperança de que alguém o encontre e cuide bem dele. Caso você ache desnecessário essa minha atitude desesperada, por favor entre em contato.

Período contemplativo

São Paulo, 28 de setembro de 2017

as vezes quando chega a madrugada dessas quentes e desconfortáveis penso em desaparecer

[só
estar
longe]

não, ninguém, nada
começar do começo do começo do começo do começo
esquecer
(você)

esquecer
de nós
de mim
de nunca ser sua
de nunca ser meu
e não existir
e não tocar
e não viver
e não beijar
e não trepar
e não chorar
nem rir
do não nem nada
de tudo
ou qualquer coisa

vagar pelas cidades em outros países tocando a vida das pessoas me deixando ser tocada só pra logo depois desaparecer tão súbita quanto vim
sendo nunca de ninguém
(sempre sendo sua)
e a saudade seria muito mais suportável do que essa
essa saudade insuportável
essa saudade das coisas tão próximas tão distantes inalcançáveis
essas coisas que desejo sem desejar ou sem precisar ou sem querer ou

(será que você)
me lê?
e você me lê
ou talvez não leia mais
porque de fato ninguém lê ninguém
além de quem procura o que ler em alguém que já não escreve mais
então você não me lê
assim como não te leio

[mesmo
querendo
tanto]

e tudo bem, tudo bem
não quero que leia minhas lágrimas espremidas tão difíceis de escorrer porque até elas já cansaram de correr
pra você
de você
de mim

não quero que me leia e pense em mim magoada quebrada morta
melhor sem você
você melhor sem mim
não quero que me leia e pense que eu já
(não desisti de tudo ou qualquer coisa)
não quero que me leia e pense que
(ainda sou sua)

então fica
fica aqui comigo
só mais uma vez
só mais algumas horas
só por mais uns dias
porque logo
isso tudo não vai ser verdade amanhã
amanhã vai ficar tudo bem
e será como se nada tivesse sido sentido
ou existido
e não serei mais

[porque nunca
foi
e nunca
existiu]

acabou.

Poeminha para ser lido bem devagar

São Paulo, 17 de setembro de 2019

quantas vezes a gente erra até não errar mais?

quanto tempo eu ainda tenho

quando vai parar de voltar

quando o jogo acaba

quando o sangue seca

a seca seca o sangue

quanto

tempo

(chance)

se eu te pedir

te implorar

o que sobra?

sobra sombra só

enquanto

quando

até

durante

.

.

.

duro

limite

Duas e meia

São Paulo, 14 de setembro de 2017

      Os pássaros na sua janela começam a cantar as duas e meia e em breve nos despediremos novamente.

      Infinitas despedidas e re-despedidas.

      Já fazem horas que estamos assim, você dormindo ao meu lado e eu acordada ao seu. Eu e os pássaros. Reconheço o passar das horas pelo alternar da luz, pela queda da temperatura, pela chegada deles sempre depois das duas.

Sabemos, contudo: nada bom acontece depois das duas.

      Estão insones, desesperados. Percebem as horas escorrendo e se empoleiram nas árvores na esperança de parar o tempo, congelar aquela cena, tornar a madrugada infindável, fugir da saudade.

      Eu sei que quando você for embora o tempo vai parar. As horas vão se arrastar, tropeçar umas nas outras e quando me der conta já teremos nos despedido há meses. Mas não me importo. Vou observar você caminhando pela rua, cada vez mais distante e me lembrar de todas as vezes nas quais assisti a esse nosso filme.

      Não. Me perdoe. Meu filme.

      Você vai me perguntar algo importante e eu vou te dizer que não sei e eventualmente não nos perguntaremos mais nada.

      Nunca quero te ver partir. Poderia dizer que preciso que você fique, mas isso não é verdade. Por algum tempo eu sentia como se perdesse algo toda vez que você descia a rua em direção ao ponto de ônibus, mas isso não é verdade. Não há nada a ser perdido por aqui e quando finalmente você vai, já não faz sentido não querer sua ausência.

      Cinematográfico.

      Te ouço dizer coisas que parecem roteirizadas, programadas, ensaiadas. Nossos movimentos parecem sincronizados como se você fosse meu parceiro de dança há anos, mas mal nos conhecemos e eu nunca sei o que eu estou fazendo. Você age como se soubesse, e eu acredito. Mas tudo são mentiras: as que você conta para mim ou pra você mesmo, as que eu conto para você ou para mim mesma. Sei que há algumas verdades intrusas no meio da nossa encenação, mas não me incomodo.

      E o espetáculo continua, ele é irresistível, os críticos estão em êxtase, mas é uma farsa e já não sei se quero assistir a próxima apresentação. Mas quero, eu sempre quero, quero tudo ou qualquer coisa, qualquer coisa ou nada. Indiferença e desejo paroxísticos. A resposta acaba sendo sim, vai sempre ser sim até não ser mais, me enroscando em algo que não pode ser, algo que não quero de verdade, me enrolando nesses abraços infinitamente longos ou absurdamente curtos.

      Então nos despedimos novamente e dessa vez estamos sorrindo. A maré está baixa, já não importa mais se é breve ou brava. Não sei para onde você vai e você não faz ideia do meu itinerário, mas tudo bem.

Me perdoe, mas não sei como termina essa história.

Você se importa?

Enganos

São Paulo, 9 de setembro de 2017

ligou às dez da manhã dizendo que sentia saudades. apesar de tudo ter ficado estranho no fim você faz muita falta.

(apesar de tudo ter ficado estranho no fim;

no fim você faz muita falta)

você ta ai?

sim. (não) desculpa, eu não sei o que te dizer. eu sinto muito.

(no fim

é uma flexão temporal desagradável, você não acha?)

Exercício de continuação do teu exercício de continuação

São Paulo, 05 de setembro de 2017

      O sol do meio dia entrava pelas frestas da janela. Joana rolava na cama vazia já há algumas horas: acordou as dez de um sonho bom, voltou a dormir, pesadelos até as onze e pouco, sono sem sonhos até meio dia e, enfim, decidiu-se por levantar. Pegou uma camiseta dele jogada nas costas de uma cadeira e a vestiu, mas desistiu de cobrir a parte debaixo do corpo porque a visão da cama vazia e desarrumada lhe causava uma aflição, quase desespero, que nesse dia resolveu evitar.

      Sentia algo acumulado dentro de si, sem saber bem o que, subindo pelo seu esôfago, como em um refluxo ácido mal educado. Era como se cada segundo a mais observando aquele quarto de casal solitário fossem responsáveis por ferver uma angústia em seu sangue, causando uma série de sentimentos embaralhados. Em sua cabeça só conseguia nomear a raiva, a tristeza, a amargura e o amor. Com certeza havia amor no meio de tudo isso tornando essa miscelânea psíquica especialmente venenosa.

      Você vê, o problema era os sábados. Todo sábado ela acordava na casa dele, mas nunca junto dele. Ele, um animal matutino e ela, um animal noturno. A questão era que Joana sempre acordava próximo da hora do almoço, enquanto ele despertava quase como se fosse o próprio amanhecer e depois disso se revirava na cama até ser minimamente aceitável levanta-se sem ela e deixá-la só.

      Ficar só no quarto dele havia se tornado uma experiência sufocante. Anos atrás, ela se deleitava com a ideia de estar no habitat natural dele, as coisas organizadas de um jeito único. Cada retrato, desenho, peso de papel ou até amontoado de roupas sujas eram coisas novas pra descobrir sobre ele. Com o passar do tempo, contudo, ela não pode deixar de estranhar como o quarto era dele e só dele. Não havia nada que a lembrasse de si própria, do que ela significava para ele. Não havia nem sinal dos presentes que deu a ele em seu aniversário, mesmo quando eram itens decorativos.

      As próprias roupas desapareciam sob as cobertas, como se a cama as engolisse, seus itens pessoais eram minuciosamente agrupados no canto da escrivaninha, perto da porta, como se ela estivesse apenas de passagem. Dentro daquele quarto era como se ela não existisse.

      Todos os sábados ela era engolida cada vez mais. Todos os sábados ela o amava mais, o queria mais e se desesperava mais porque todas as vezes que ele se levantava da cama e a deixava só, ela tinha certeza que havia um abismo entre os dois.

      Finalmente, sai do quarto nua da cintura para baixo. Não uma nudez provocativa, pelo contrário, uma nudez displicente. Encontrou-o na cozinha, preparando o almoço. Encostou-se no batente da porta observando a faca na mão dele descendo e subindo pela tábua de carne, fatiando perfeitamente os legumes. Primeiro pensou em dar bom dia, em abraçá-lo pelas costas, talvez pegar uma cerveja na geladeira e entregar a ele com um beijo, mas se inibia de qualquer uma dessas coisas porque não se sentia certa de nenhuma delas.

      Havia somente uma certeza sobre todos os sábados e era de que fatalmente eles brigariam, como de costume. Não sabia bem o que acontecia, sentia vontade de dizer algo doce, mas sempre era impedida por aquela sensação no esôfago, causada pela estupidez de se incomodar com o quarto dele e o que saia de sua boca era sempre inseguro, duvidante, cambaleante. E ai começava. Ele percebia, claro, o incômodo. Mas por algum motivo o interpretava errado, interpretava como um desafio, uma provocação, uma tentativa de destruí-lo de alguma forma. Mas não era isso, de maneira alguma. Era alguma forma de medo. Medo do quanto ela o amava e o queria enquanto não fazia ideia do quanto ele a amava ou a queria e aos sábados era sempre pior porque aquele quarto terrivelmente individual era exímio na tarefa de evocar tudo isso. Assim, ela o odiava por não entendê-la e o amava por não entendê-lo.

“Quer ajuda para cortar alguma coisa?”

“Não precisa.”

“Você tem medo que eu corte errado?”

      Ele gesticula vagamente, como quem diz que não sabe, ou que não se importa. Sugere então que ela escolha uma música mas ela sabe que não saberia escolher uma música que ele gostasse.

“Não conheço nenhuma das músicas que você ouve”.
      De novo o gesto vago e a sugestão de que ela apenas ligue o rádio, pois eles podem ouvir qualquer coisa que esteja tocando. Ela aceita a sugestão, um pouco contrariada porque talvez uma parte dela desejasse uma resposta do tipo ele “você sabe que gosto de The Smiths” ou “pode ser aquela do Caetano”.

      Suspira profundamente, tentando ignorar a sensação desagradável, Engole a frustração, pega duas cervejas na geladeira, gesticula um brinde frustro e bebe despretensiosamente.

      Senta na mesa, começa a folhear os jornais que ela mesma havia trazido para cima, observa a cozinha evitando olhar para ele.

      O armário do canto está cheio de pacotes de café, pacotes que ela mesma trouxe, porque ela ama café e ele detesta café. Detesta, mas todo sábado passa um café para ela, como parte do ritual de acordar antes dela, viver metade do dia sem ela, deixá-la sozinha no quarto.

      É uma prova de amor. Ele te ama, então passa o café para você todas as manhas de sábado, apesar de odiar café. Ele te ama, então acorda mais cedo que você todos os sábados e prepara um almoço para vocês dois. Ele te ama, então se esforça ao máximo para não fazer nenhum barulho quando se levanta, porque sabe que você gosta de dormir até tarde.

      Ela balança a cabeça de maneira quase imperceptível, tentando afastar esses pensamentos. Sabe que o ama, mas não sabe se ele a ama, mas isso é uma dúvida tão tola, tão estúpida. Como poderia não amar?

      Então ela pergunta: “Como foi?”.

      Sua voz paira no ar, sai da sua boca e paira no ar. Ela sabe que é assim que começa. A discussão, a briga, o conflito não-armado, a guerra fria. Ele nunca responde honestamente, ela sabe. Ele sempre inventa alguma coisa idiota, alguma coisa que ele pensa que vai ser romântico, que vai agradá-la. E fatalmente ele falha, pois não é isso que ela procura e a uma discussão interminável se segue, uma discussão cujo único desfecho é mágoa entre os dois.

“Como foi o que?”

“Como foi quando você se apaixonou por mim?”

      Alguns minutos se passam e ele prossegue com os preparativos do almoço. Ela podia quase sentir ele se odiando por ter continuado a pergunta, o desespero crescendo dentro dele porque dessa vez, dessa única vez, ele não conseguiu ser evasivo, porque agora ele teria que responder alguma coisa. Ele joga água gelada dentro da panela, a fumaça e o chiado subindo e responde sem se virar para trás:

“Eu nunca me apaixonei por você”

Epitáfio

São Paulo, 28 de agosto de 2017

      Essa noite sonhei contigo. Chovia muito e o vento batia nas janelas fazendo aquele barulho fantasmagórico que costumava me assustar quando eu era criança. Não sei bem onde estávamos, nem como fomos parar naquele lugar. Não era meu quarto, nem o seu, nem de ninguém conhecido. Sabe, talvez tenha sido mais pesadelo que sonho.

      Não sei porque estávamos juntos. Transtornada, confusa, eu te questionava por que você tá fazendo isso? mas você não respondia, você nunca reponde. Levava a mão em direção ao meu rosto, pegava meu queixo e me beijava. Me beijava de novo e de novo e de novo até o momento no qual você decidia partir. Eu te perguntava, que horas você volta? Às vinte, você dizia.
Acordo com vontade de te ver. Uma vontade moribunda, caquética, neoplásica, porque isso tudo não passa de uma doença infecciosa, dessas desagradáveis que nos deixam inertes, consumidos, incapazes. Ah, eu sinto muito a sua falta. Te guardo em uma caixa de chumbo, sabe? Enterrei o mais profundo possível, tentando desesperadamente fugir da sua radiotividade, mas de noite quando fecho os olhos ainda consigo ver o brilho do césio-137 no chão, debaixo das tábuas de madeira, debaixo dos infinitos palmos de terra. E sinto a sua falta. Ainda consigo sentir o gosto do seu veneno na minha boca, o cheiro da morte no ar, a morte que vem mas não vem de verdade, nunca vem. Eu continuo viva, andando por ai, em um labirinto de amantes aleatórios que uso displicente na tentativa de saciar meu desejos fúteis.

      Posso dormir mais algumas horas. Amanhã é domingo, ninguém acordou ainda nessa casa, justo hoje que não consigo dormir mais, aterrorizada pela ideia de fechar meus olhos e encontrar seu rosto adorável cheio de sardas.

      Adormeço novamente e dessa vez é um daqueles sonhos em que preciso fazer algo e não consigo. Já te contei sobre um desses, lembra? Eu precisava andar rápido e não conseguia e não tínhamos tempo, não podiam com o meu passo lento, arrastado. Precisavam que eu fosse mais rápido. Você me disse que esse sonho tinha a ver com eu ter medo de não ter tempo, de eu querer que as coisas fossem rápidas. E ainda há tempo,você disse.

      Mas agora o tempo acabou, você percebe? Acabou. Não há mais nenhum segundo, nenhum minuto. O fim já veio e já foi, o último suspiro já veio e já foi. Estamos todos mortos no chão, cercados de cobras, feridas e sangue. Ninguém sobreviveu nessa catástrofe. Mas sinto a sua falta. A chuva ainda cai, a mesma tempestade do primeiro sonho e eu me rastejo pra longe de você, quero me manter o mais distante possível. Só que esse é um dos sonhos nos quais eu não consigo, como já disse. Então quanto mais eu me aperto contra o chão e finco mais minhas unhas no assoalho, na tentativa desesperada de criar impulso para me lançar longe disso tudo, menos força eu tenho. E sinto a sua falta.

      Deito na cama de alguém, em cima do peito de um missionário, de um psicótico, ouço ele falar por horas sobre algo que não me interessa e penso que finalmente acabou, finalmente foi embora. Finalmente.

      Mas não é verdade. Não acabou. Esse é o castigo. Essa é a morte que vem e em verdade não vem, que nunca vem. Esse é o preço. Continuar aqui sozinha, persistir contra minha própria vontade nesse caos particular. Me sentir absolutamente viva enquanto completamente morta.

Abro os olhos mais uma vez e suspiro.
Ah, eu sinto muito.
Eu sinto muito.

Helena

São Paulo, 25 de agosto de 2017

      Faziam três meses que não a via.

      A última vez tinha sido naquela galeria do centro que ela detesta. Observamos aqueles quadros sonsos por horas, concluímos que esse tipo de arte não era capaz de nos tocar, dividimos um cigarro e partimos cada um para um lado da cidade. Não soube precisar quando a veria novamente e nem sei dizer se queria vê-la de verdade. Mas como nada é simples nessa história, te digo que ela mora com meu melhor amigo, na rua do gasômetro, e toda vez que eu o visitava tinha de me preparar para a possibilidade de encontrar com ela.
A ideia de cruzar meus olhos com os dela, de observar as curvas dos músculos do pescoço subindo até seu queixo, de ouvir aquela voz arrastada e rouca…

      Me doía o coração, sabe? Ah, como doía.

      As semanas foram passando e nossos possíveis encontros se tornaram desencontros. Não a vi mais, em nenhuma de minhas visitas ao meu amigo, em nenhum mercado, farmácia, ponto de ônibus ou qualquer coisa parecida. Era como se ela nunca tivesse existido, como se nunca tivessemos nos conhecido. Eu não fazia perguntas sobre ela, não procurava sinais dela em lugar nenhum. Dentro de mim eu sabia que o melhor era de fato me convencer da inexistência absoluta e irrefutável daquela mulher. Então eu não perguntava, não pensava, não lembrava.

      Ela também não me procurou. Imagino que tenha sido um alívio não precisar conversar mais comigo, responder minhas mensagens de bom dia e boa noite , a única comunicação mantida entre nós depois do dia da galeria. Isso se considerarmos esse envio unilateral como uma conversa. Na verdade, está mais para um monólogo educado de cumprimentos.
Um dia desses acordei transtornado de um sonho e resolvi confrontá-la. Disse a ela que não suportava isso, as ausências, os joguinhos, fingir que não me importava, fingir que não gostaria da presença dela em minha casa todos os finais de semana, fingir que não queria construir uma vidinha com ela, enfim. E disse que se antes não sabia o que queria agora eu sabia o que precisava e a questão era: ela me fazia mal. Me corroía por dentro, me envenenava lentamente, me sufocava, sugava, consumia… Então de nada me servia querer estar com ela se ela não me queria e, ainda ou pior, de nada me servia esse desejo se ele me matava aos poucos.

      Ela nunca me respondeu.

      É difícil, né? As despedidas. Nos despedimos tantas vezes, eu e ela. Em cartas, telefonemas, mensagens, encontros. Nos despedimos inúmeras vezes. Ou, melhor dizendo, eu me despedi inúmeras vezes. Deitado em minha cama, ou na cama de alguém, seja sozinho, seja acompanhado, fechava meus olhos e conseguia imaginar perfeitamente seus cabelos negros muito bem cortados empoleirados em sua cabeça.

      Me despedi quando percebi que nunca seríamos nada. Me despedi quando meu amor se tornou ódio. Me despedi quando o ódio virou saudade. Me despedi quando cansei de sentir saudades sozinho. Me despedi quando percebi que precisava deixá-la partir de dentro de mim, porque da minha vida ela já havia partido faz tempo.

      É duro quando você é o último que resta. É duro partir. É duro desistir. É tudo muito difícil, penoso, pesado. Sem sentido, confuso. É irritante até, se perceber se despedindo novamente.

      Percebo, entretanto, mais uma vez.
      Seus olhos nunca estarão nos meus.
      Sua pele nunca mais encostará na minha.
      Sua mão gelada nunca mais vai se esquentar em mim.

Gostaria de dizer até logo, mas não seria apropriado.
Então, adeus.

Esquema de pirâmide

São Paulo, 14 de agosto de 2017

      Cheguei em casa morrendo de vontade de acender um cigarro, pensando no gudang guardado na minha caixa de madeira. Mas é claro que não ia poder fumar, nunca posso, não em casa pelo menos.

      Então me sentei na frente do computador e resolvi escrever um conto, uma releitura de algo que li há tempos. Achei que iria me fazer bem, como um treinamento: escrever do ponto de vista de alguém que não conheço, um ser mitológico criado pelas minhas loucuras, inseguranças, expectativas. Colocar essa criatura no papel, dar alguma forma a ela, fingir ter acesso aos seus sentimentos e pensamentos. Isso já me deu algum tipo de paz cínica no passado e achei que esse seria o melhor jeito de terminar a semana.

      Aliás, que semana.

      Não sei se rio, se choro… Na verdade já ri, já chorei, já fumei alguns cigarros, já tentei transformar em conto, poema, mas nada foi pra frente. A verdade é que comecei a semana pensando em um alguém reminiscente e termino a semana do mesmo jeito.

      O curioso é: depois de ter escrito a tal releitura não me senti melhor não. Me senti incompleta, anestesiada, artificial. O meu conto ficou sem fim, assim como o original, porque não sei como terminá-lo. Então aceitei passivamente o não-final horroroso, salvei nos meus rascunhos (sinto que preciso de algum tipo de autorização para dar algum fim a ele e infelizmente — ou felizmente — o autor original encontra-se, de uma forma ou de outra, indisponível para mim) e fui pegar o gudang dentro da caixa.

      O cheiro de cravo me atingiu instantaneamente e a vontade de fumar se transformou em uma náusea muito intensa. Logo desisto do plano de fumar antes da aula na segunda feira, aliás, desisti de fumar qualquer coisa, porque o cheiro de repente é tão horrível que não entendo esse hábito, não entendo essa loucura, não vejo sentido em absolutamente nada disso. Nada faz sentido, puta que pariu, como é possível nada mais fazer sentido nenhum? Mas é isso, né. Esse conto, essa releitura, você, ele, nós, ela, o cigarro, a semana, o esquema de pirâmide evangélico, o vênus em escorpião… Tudo isso me deixa muito nauseada.

      Me enjoa o medo de parar de escrever quando tudo isso acabar, quando a indiferença finalmente se mudar para o quarto de cima. Paradoxalmente me enjoa a demora pra chegada da indiferença. Me enjoa pensar que o momento mais em paz da semana foi com uma pessoa absurda, e, acima de tudo, alguém que eu já descartei. Me enjoa ver o relógio do celular piscando uma hora da manhã e saber que a segunda feira vai ser insuportável porque eu prometi pra mim mesma que dormiria cedo e cá estou, insone. Me enjoa o meu excesso de orações subordinadas. Tudo isso me enjoa.

      A náusea é a única coisa que me resta. É a sensação que acompanha toda essa história, todo o contexto, todos os efeitos colaterais, toda dose de resgate.
Me desculpe, porque outra vez escrevo um texto sem fim, outra história sem história, sem personagem, sem nada. Outra baboseira ficcional, ou não ficcional, auto biográfica ou não auto biográfica, o que importa?

      No fundo só depende de quem lê.

      No fundo a intenção por trás da narrativa não interessa.

      Pego meu celular e mando uma mensagem: amanhã te conto se fumei o gudang ou não.

Intercâmbio

São Paulo, 31 de julho de 2017

boa noite senhores passageiros bem vindo a bordo do vôo umsetequatro com destino a próxima fase do luto estamos a duzentosevintecincomil pés e nessa deliciosa noite de inverno ouvimos

portas fechadas
minha risada ecoando pelas paredes da sala, do quarto
o medo se dissolvendo no silêncio doce do canto direito do corredor

uma aeromoça bem apessoada se dirige ao passageiro do assento vinteesete coloca o dedo na cara dele grita um sussurro silencioso

achei que seria penoso me deitar sob as rochas nas quais você fodeu
minha cabeça
meu corpo
minha alma
minha vida

mas para qualquer um que perguntasse
era como se você não existisse
e dentro de mim
era como se você não existisse

entretanto existiu
não existe mais
desfecho feito
aceito
ruminado
vomitado
re-engolido
finalmente aceito
de novo

a comissária de bordo já terminou de confrontar o tal passageiro vinteesete você me pergunta te respondo não sei do que você está falando que comissária que passageiro eu que te pergunto

que me resta?
me resta a continuidade do meu plano
assim como te resta a continuidade do teu

maré breve na tua vida
maré brava na minha vida
uma metáfora carinhosamente roubada de outro texto que não se encaixa o suficiente

gosto da ideia da metáfora esdrúxula do avião do mar do vômito porque assim fica bem catatônico existencial verborrágico clichê

é meu jeitinho
esse drama por vezes real e insuportavelmente doloroso
por vezes cínico e ficcional com o único objetivo de
criar qualquer coisa
poema
dor
conto
vingança
romance
thriller
assunto
alivio
ferida
chaga
chega

boa noite.

Ernesto

São Paulo, 20 de julho de 2017

acordar é sempre um pouco difícil
lençóis retorcidos
uma sensação de
vazio, vazio
o que você faz com todas as lembranças?

um homem estranho ao meu lado
não tão estranho
não é que eu não o conheça
é só que
ele não é quem deveria ser
ou quem gostaríamos que fosse

eu, estranha
não tão estranha
não que ele não me conheça
é só que
eu não sou quem deveria ser
ou quem gostaríamos que fosse

mas tudo bem, tudo bem, dizemos
entendemos, concordamos
gostamos

nos entrelaçamos em uma dança esquisita; confortável
necessária
te peço que tome cuidado para não tropeçar
não, não se preocupe comigo
eu já estou no chão

me permite a liberdade poética de comparação?
a sinopse nunca poderia ser a mesma
sem cobras, sem feitiços
só nossos gemidos

algo do setting é parecido
enfim, personagens diferentes
essa peça é toda bem ensaiada
muito bem cronometrada
tudo sob controle

dançamos a noite inteira
dançaremos inúmeras vezes
apertamos nossas mãos em um acordo de cavalheiros
não se preocupe
daqui não sai nenhuma ferida

Lucky Strike Vermelho

São Paulo, 13 de julho de 2017

      Caminhávamos em silêncio. Você jogou o fim do seu cigarro ainda acesso no chão, a fumaça criando espirais no ar, subindo, subindo até o interior do meu cérebro, incitando meu ódio por você. Hoje quando nos cumprimentamos senti pela primeira vez o cheiro do cigarro nas suas roupas. Engraçado como minha tristeza se torna raiva e minha raiva se torna tristeza muito rapidamente. É fácil te odiar (ou devia ser). Sua cara de idiota, sua barba por fazer, seu Lucky Strike vermelho para completar o clichê que você é, que eu sou, que fomos.

      Passamos em frente a um desses caras malucos, desses que vagam eternamente pelas ruas quebrando silêncios desagradáveis entre não-amantes. “Muitos passam, mas poucos sobreviverão”, ouvi ele gritar. Quão pertinente.
      Dei uma risada engasgada, rouca e antes que eu pudesse evitar, senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Tentei limpá-las sem que você percebesse, num gesto automático desenvolvido especialmente para você, porque eu sei o quanto te incomoda me ver chorar.
      Você acendeu o seu segundo cigarro seguido, o cheiro enjoativo me atingindo como um soco, e na tristeza súbita, não me contive:

– Você me quebrou.

      Esperei sua resposta, mas ela não veio.

– Ou eu me quebrei, ou os dois…

      Senti sua mão no meu ombro, me interrompendo, num gesto delicado e desconectado das palavras que viriam a seguir.

– Isso não é coisa que se diga.

– Eu sei que não.

      Pensei nas mentiras que contamos para nós mesmos, repetidas vezes, como um mantra, todos os dias, até se tornarem reais. Pensei nos meus rascunhos de memórias repletos das groselhas que você me contou, das palavras doces que ouvi de você. Pensei em como bloqueio essas lembranças, porque sei que elas já não têm nenhum propósito a não ser incomodar. Preciso esquecê-las, enterrá-las, para que eu possa seguir em frente com os planos que tinha antes disso tudo.

– Eu sei que não, — repeti, incapaz de parar o mar de lágrimas e palavras desprendendo de mim — peço desculpas.

– Imagina como é difícil ouvir que você é a causa do sofrimento de alguém.

– É, imagina… Talvez seja o caso de ocultar o sujeito da ação, então?

– Não, não é isso. Só não diga nada, não fale a respeito dos seus sentimentos. Não há nada que eu possa fazer, então cale-se. Chega disso, acaba com isso, pelo amor de Deus, porque eu não suporto mais essas despedidas e re-despedidas.

– Tudo bem, eu vou. Somos adultos aqui, sabemos que esse jogo de culpa não leva a lugar nenhum. Sabemos que não vamos a lugar nenhum. Mas peço desculpas, porque olhando na minha cara você sabe, eles sabem, todo mundo sabe. Infelizmente algumas pessoas são… transparentes.

      Você não me respondeu. Não me olhou nos olhos. Olhava para baixo, para o chão, ou para algum lugar perdido dentro de você mesmo, inalcançável por mim. Limpei minhas lágrimas, inutilmente, porque várias outras insistiam em vir. Então, continuei:

– O silêncio é a melhor forma de lidar com isso, eu sei, eu sei. Sorrir em silêncio, um sorriso convincente. Dentes brancos que gritam “estou bem, estamos bem, está tudo bem”. É o único jeito de coexistirmos civilizadamente. Fingir que nada aconteceu, fingir que foi tudo um sonho. Eu consigo, sei que consigo… Só que hoje eu não consegui. Foi demais. Alguma coisa foi demais.E então, você estourou. Finalmente, pensei comigo mesma.

– Para com essa palhaçada. Para com esse choro ridículo. O que inferno você quer que eu faça? Eu não posso fazer nada. Não sei o que você quer de mim. Que porra que você quer de mim?

      Olhei nos seus olhos, na altura dos meus, nossos poucos centímetros de diferença de altura parecendo um abismo de distância. De novo eu nessa posição, de estar sofrendo por você, de não conseguir seguir em frente. Eu achei que tivesse superado, que tinha ido embora, mas volta toda vez, como ondas de um mar cruel e insaciável. Quando a maré recua, sou sugada para dentro, penso por um segundo que conseguirei nadar, sobreviver, mas logo a onda retorna, violenta, me cuspindo para fora, me fazendo engolir a água salgada, me afogando no monte de decisões imbecis que tomei depois de você, me afogando na lembrança dos pedaços do meu corpo indo embora do meu porto seguro e indo em direção ao mar. Quando vi, já tinha ido inteira e não havia para onde voltar. Não que eu quisesse voltar, pudesse voltar, mas mesmo assim. O sal arde nas minhas narinas, me lembrando o quanto essa saudade do porto seguro é estúpida. Talvez tenha sido isso. Esses dias essa saudade bateu e meu cérebro confunde os sentimentos, me jogando de volta para você.

– Eu tô testando sua paciência, eu sei. Não é proposital. Toda noite eu tento assassinar essa parte insuportável de mim, que não deixa estar, essa parte que continua. Tento sufocar com o travesseiro, envenenar com cianureto, jogar do terceiro andar do prédio… Mas ela volta, ela sempre volta, quando eu menos espero, quando eu acho que já morreu. Vai passar, vai passar, eles dizem. E vai mesmo, eu sei que vai. Em algum momento eu vou poder olhar para você e não sentir mais nada.

– E enquanto isso, o que? Você quer que eu me sinta um lixo? Que eu chore como você, sinta como você? Eu não posso fazer isso. Se eu te disser que me sinto como você eu vou estar mentindo e você sabe muito bem disso.

      Seu rosto era inexpressivo durante todo vômito de palavras que se seguia. O olhar vazio, que eu não sei decifrar. Talvez não saiba decifrar porque não há nada ali. Todas as vezes que houve, eu entendi. Então é sábio supor que quando não te entendo é porque não há nada para entender. Não há nenhum sentimento. Olhos negros e buracos vazios.

– Às vezes eu quero sim que você sofra. Queria ser capaz de te fazer sofrer. Queria ser capaz de fazer você sentir saudades… Sentir alguma coisa, qualquer coisa. Mas é ilusão, eu não sou capaz, ninguém é. Essa é uma egomania que eu não sei de onde vem. Ou queria ser capaz de voltar no tempo, de reviver o que já foi. Mas, de novo, isso não é possível. Então quero não sentir mais, não me importar mais. Quero que você volte a ser o estranho que você era, mas sem o peso das memórias de quando você não foi. Eu engulo um inibidor seletivo de hipocampo todos os dias pela manhã. E você, o que você engole de manhã?
      Nossa caminhada chega ao fim. Estamos na frente do ponto de ônibus e você ainda tem que seguir andando mais alguns minutos. Você põe sua mão cálida no meu rosto e eu coloco a minha mão fria no seu. Cômico como nossas mãos são a perfeita antítese do seu coração gelado e do meu peito quente.

– Me desculpe — você sussurra, num tom de voz doce. Agora vejo dentro do buraco negro que você chama de olhos algo como pena, dó, talvez culpa, mas nenhum desses sentimentos me satisfaz.

      Eu balanço minha cabeça.

– Estou indo embora agora. Você já foi, só me resta eu, então estou indo. 
      Nos despedimos sem nos abraçar. ­

Forró

Niterói, 6 de julho de 2017

      Terminei meu cigarro pensando em você. Pensando em como eu fumo e você não. Pensando na fumaça impregnada no meu corpo. Estranho como gruda em mim e não em você. Tomo três banhos seguidos, um de banheira e duas duchas. Meu cabelo ainda fede aquela fumaça indistinta que eu odeio tanto. Odeio, mas fumo. Não sei porque eu comecei isso tudo. O cigarro. Escrever sem personagens. O personagem é sempre você, mas nunca é você, porque eu não faço ideia de quem você seja. Repetições de palavras, de pronomes, de temas, voltando a esse escrever estúpido sem sentido, sem narrativa, como um desabafo aleatório criado a partir da minha náusea física e mental. O cigarro é pra terminar de destruir, quebrar o que foi por tantos anos, porque quando eu botei o meu primeiro cigarro na boca naquela bar esquisito em santa cecília eu juro que eu não sei quem eu sou. Ah, meu deus, que náusea, que náusea. Eu sei que não vou vomitar, que vai passar, sumir. Descer. A minha náusea sempre desce pro fundo do meu corpo. Quando ela vem, eu sempre temo vomitar tudo que eu já consumi na vida. Eu lembro de um história maluca de conto de fadas, um feitiço que fazia alguém malvado ao falar soltar sapos, serpentes e insetos enquanto alguém bonzinho quando falava soltava… borboletas? Poxa, borboletas são insetos também. Eu acho que as minhas histórias orbitam a sua volta porque você é a única pessoa que me viu parando de ser quem eu era e me tornando quem eu sou. Fui cem por cento sincera com você. Me despi pra você como nunca mais havia me despido pra ninguém. Ou talvez, não nunca mais, só nunca mesmo. Constantemente volto pra você, tentando entender quem eu sou agora. Mas a gente já se despediu, não vamos nos falar mais. Combinado tipicamente da eu do passado. Essa coisa de combinar, sabe? Eu e minhas regras. O estranho é que você que criou essa regra. Naquela tarde quente, quando você me ligou as dez e disse acho que devíamos não nos falar por uns dois meses… depois voltamos a nos falar de novo. Eu nem concordei nem discordei, nem sei mais o que eu disse também, mas já não queria falar com você, não queria já fazia semanas e falar depois de decidir que não queria mais foi desrealizante. Mas essa regra não fui eu que criei. Talvez eu não crie mais regras. Eu não sei mais quem eu sou e sinto que nunca soube quem você é. Nunca vou saber, porque não vamos nos falar mais. No fim você é só uma projeção minha e no fim é por isso que o tema sempre orbita a sua volta: Eu tô fingindo que isso é sobre você, sobre nós, mas no fundo é tudo sobre mim. Esse texto é uma cilada. Tudo isso foi, do começo ao fim. Primeiro você pensou que era sobre você, assim como eu pensei que era sobre mim, mas depois tudo fica nebuloso, tudo confuso, você não se encontra… Lê, re-lê e, indiscutivelmente não se encontra. É estranho ler uma carta achando que ela foi endereçada a você, quando na verdade nunca foi. Estranho perceber que enquanto conversávamos não conversávamos de fato. Será que estivemos na mesma conversa em algum momento? É uma cilada, tô te dizendo. Esse meu jeito displicente de escrever, como se conversasse com alguém. Não é sobre mim, não é sobre você, não é sobre nada. É ficção. Eu não fumo, você não fuma. Ou nós dois fumamos, mas o que importa? Eu não existo. Nem você. Acendo outro cigarro e me pergunto: “porra, quando vocês vão parar de achar que tudo que eu escrevo é auto-biográfico?”

Festa Junina

São Paulo, 25 de junho de 2017

fecho os olhos.
lento.
zumbido.
zumbido bilateral.
você é ausência.

dar o nome só deixa mais cruel.
quanto tempo meu corretor ortográfico vai sugerir você?
eu posso não existir.
podemos não existir.
não existimos.

cada estrofe é uma pessoa.
essa não vale.

a música toca meu corpo como um fado.
mas não sei o que é um fado.
me beija.
sim, sim, ela é a próxima.
a próxima da lista
e dessa vez o gênero não está errado
quanta arrogância a sua

supor que o gênero não está certo

Apartamento 71

São Paulo, 8 de junho de 2017

      Ficamos o caminho inteiro dentro do carro em completo silêncio. Esses silêncios incômodos, carregados de palavras não ditas, pensamentos que se acumulam mas que não se formam completamente e então não dizemos nada.

“Você gostou do jantar?”

      Ele responde que sim, que é sempre bom encontrar Roberto e Joana. Eu sorrio. É verdade, é sempre agradável jantar com eles. Sempre animados, aquele casal que faz mil planos, já tem viagem marcada pra daqui há meses… Talvez se casem ano que vem.

      Ele sorri de volta, um pouco melancólico. O elevador finalmente chega no nosso andar.

      Logo que entro já caminho até a geladeira para pegar o resto do vinho que deixamos aberto na quinta feira. Virou um hábito esquisito. Toda vez que a gente sai e volta nesse silêncio constrangedor eu bebo uma taça de vinho. Sento na poltrona, ligo qualquer coisa na televisão e bebo. Ele sempre vai pro quarto dormir. Nunca foi um animal noturno.

      Mas hoje não. Hoje ele para no meio da sala, olha pra mim e pergunta se eu não quero abrir uma garrafa nova, para bebermos juntos.

      Digo que tudo bem e pergunto qual ele prefere. Qualquer um, escolhe você. Ah não, você sabe que eu odeio escolher vinho. Ele revira os olhos e decide: aquele que minha mãe me deu de presente.

      Abrimos o vinho, bebemos sentados na poltrona, as mãos dele no meu colo. Arrisco olhar para ele. Ele me olha de volta, fazendo aquela cara triste, como se procurasse pedaços perdidos dentro de mim. Então eu dou a deixa.

“O que você tá pensando?”

“Nada”

“Você tá com aquela cara de que quer dizer alguma coisa mas não sabe como”

“Por que você sempre acha que eu não tô te dizendo alguma coisa?”

“Por causa dessa cara que você faz.”

      Ele suspira, cansado. Peço mais uma vez que ele diga o que está pensando. Ele tira a mão do meu colo e passa no meu cabelo.

“As vezes eu sinto que você não está aqui. Que uma parte de você foi embora. Não sei exatamente quando, mas foi.”

      Eu não respondo. As vezes é como se algo tivesse morrido dentro de mim algum tempo atrás, algo que ele tenta desesperadamente trazer de volta. Algo que, quando foi, levou um pedaço dele também.

      Ele suspira de novo.

“Me desculpa. Ver Roberto e Joana sempre me deixa assim. Eles tem esse jeito de destino que me incomoda”

      Eu dou uma risada e percebo que o relógio marca 2h. Me levanto da poltrona e peço que ele me siga até o quarto. Digo que nada de bom sai de conversas depois das duas da manhã. Ele sorri com a referência, porque só ele entenderia, e me acompanha.

      Na porta do quarto nos abraçamos. Ele sussurra um eu te amo no meu ouvido. sussurro de volta. Roubo um beijo dele e peço que mesmo quando eu for, que ele não me deixe ir. Mesmo quando eu for, fica. Sim, eu fico. Eu sempre fico. É, eu sei. Você fica porque você quer ficar e eu também. Você sempre fica e eu também.

Disque 192

São Paulo, 22 de junho de 2017

      O céu cinza derruba um chuvisco chato, desses que vão embora tão subitamente quanto chegam, voltando sob a constante ameaça de partir novamente. Deixa as roupas úmidas e o chão escorregadio mas não é de fato uma chuva. São dessas coisas estúpidas da vida: não fode e nem sai de cima, chove mas não molha. Só que molha, né. A verdade é que molha.

      Uma moça jururu acena para um táxi e entra rapidamente no veículo. Não sei se ela está verdadeiramente triste, mas a expressão melancólica em seu rosto me faz supor que sim. Seu longo noivado se desfez no último feriado e ela entra no carro se sentindo vagamente perdida na súbita solteirice, esperando que o GPS indique a melhor rota. Ou talvez só tenha perdido a hora para uma reunião importante. De todo modo, dentro de um táxi do outro lado da rua entrou uma moça jururu.

      Enquanto isso, a algumas muitas ruas de distância, Beatriz mastiga lentamente um pão francês com manteiga, apoiada na pia da cozinha do seu apartamento vazio. Seu gato está deitado preguiçosamente no sofá e ela engole o desjejum na esperança de se sentir um pouco menos vazia enquanto seu estômago se enche aos poucos depois de horas de sono mal dormidas. Beatriz não está solteira, como a moça-jururu. Está em um longo relacionamento, igualzinho ao recém-falecido noivado da moça-jururu, apesar deles não serem nem um pouco iguais.

      Há muitas palavras que se repetem dentro de um e de outro, assim como se repetem dentro de outros tantos, porém só há duas realmente importantes para o entendimento dessa história. A primeira é “longo” e a segunda não é de fato uma palavra, mas sim uma constatação: o noivado da moça-jururu terminou pelo mesmo motivo que o relacionamento de Beatriz continua. Você pode pensar ah, mas isso constitui um paradoxo e eu te respondo que não, não constitui, pois os seres humanos envolvidos nessa história são dramaticamente diferentes, ao mesmo tempo que, claro, são iguais. São diferentes porque alguns deles chovem e não molham, enquanto outros chovem e molham, mas são iguais porque no final todo mundo sai molhado.

      Em todo caso, Beatriz logo sai de casa, pois já passam das oito horas e ela não pode se atrasar para o trabalho. É uma pessoa responsável e dá cem por cento de si em todas as atividades remuneradas que exerce. Talvez só faça isso nos aspectos da vida que tangem a esfera pública. No que diz respeito a esfera privada, não posso dizer com certeza, porém em nome da literatura, suponho que Beatriz não é como o chuvisco: quando ela chove, ela molha.

      Ao entrar no elevador, encontra sua vizinha do andar de baixo, cujo nome não se recorda e não se importa de não recordar, pois nunca trocaram uma só palavra. Entretanto, se lembra do nome de seu marido, Bernardo. Infelizmente, Bernardo estará morto dentro de alguns dias e Beatriz só ficará sabendo disso dali há três meses.

      Diferente da esposa, Bernardo troca muitas palavras com Beatriz. Sempre no elevador e sempre as mesmas palavras. Como vai, querida? Uma pergunta que ela nunca responde com honestidade, afinal de contas é apenas uma conversa de elevador. Ao mesmo tempo que não é, pois esse hábito de não demonstrar a sinceridade dos sentimentos é uma característica de Beatriz. Em um dia ensolarado e terrivelmente quente, Bernardo a encontrou com os olhos vermelhos no hall do prédio e quis chamá-la para tomar um café, no qual a aconselharia a não guardar rancores por mais de três anos, pois a partir dessa data eles começavam a apodrecer dentro dos nossos intestinos e causavam diverticulite.

      Essa conversa, entretanto, nunca aconteceu. E agora não há de acontecer mais, pois dentro de alguns dias Bernardo estará morto. Morre de fato três dias depois, mas já começara a morrer logo depois da partida da mulher, pois tinha um aneurisma que explodiu enquanto dormia e só foi encontrado lá pelas oito da noite, quando a mulher chegou em casa depois do serviço. Quando ela voltou, era tarde demais.

      Há coisas assim na vida, que só descobrimos quando é tarde demais. Aneurismas cerebrais são assim, mas podem não ser, graças ao tomógrafo, aos cirurgiões e o número da emergência. Tragicamente, dessa vez foi tarde demais e nada pode ser feito a respeito disso.

      E esse relato que começou com o chuvisco às sete da manhã, se encaminha para uma história de partidas e morte. Bernardo partiu. O noivado da moça-jururu faleceu. E o relacionamento de Beatriz já começou morrendo e continua morrendo até hoje, até que algo seja feito a respeito, antes que seja tarde demais. Para Bernardo não houve possibilidade de nada ser feito, até que fosse tarde demais, pois algum filho da puta responsável pelo roteiro do universo quis que ele estivesse sozinho em seu apartamento. Em relação ao noivado da moça-jururu pode-se dizer que morreu de velhice e, nesses casos, felizmente ou infelizmente, nunca ninguém se pergunta quando ficou tarde demais.

      Entretanto, essa história não é sobre eles. É sobre Beatriz, que seguirá normalmente com a sua vida, assim como já faz há alguns anos, acreditando (mas não acreditando de fato) que seu relacionamento irá sobreviver (diferente de Bernardo e do noivado da moça-jururu), pois ela acredita ter discado o número da emergência, acredita que o resgate está a caminho e chegará de fato antes que seja tarde demais.

      Quando Beatriz estaciona o carro na garagem do escritório onde trabalha, ela torce para que o chuvisco acabe e que o resgate chegue. E para fins literários, te digo que o chuvisco acaba. Não sei dizer se chega a virar chuva ou não e também não faço suposições, porque elas já não me interessam.

      E o resgate? Ah, o resgate chega. Só que essa é uma história de mortes e partidas, você queira ou não, então o resgate chega sim, porque ele sempre chega, mas parte com um morto. Resta saber quem sobrevive. Eu, cinicamente, torço por Beatriz.

sexta-feira

São Paulo, 9 de junho de 2017

teus olhos azuis encontram meus olhos castanhos tão cheios de vazios e dúvidas confusas que transbordam pros seus me afogando te enforcando nos matando aos poucos vamos vivendo mortos andando sem rumo até que meus braços tocam seus braços num abraço de angústia que logo derrete o medo e finca mais forte a estaca que segura nossos corpos unidos sangrando juntos até o primeiro cair seco no chão embora continue passando entre a gente tão certeiro nos deixa vivendo sorrindo porque nada faz sentido se meus lábios não tocam seus lábios toda sexta feira são vinte e dois dias sem te ver pra que a saudade exploda seu peito e rasgue minha carne abrindo um buraco profundo de silêncio de medo até você ir embora eu ir embora não vamos embora ficamos dançamos dormindo beijando transando apertando cada vez mais a corda antiga que liga meu corpo no seu corpo no chão do quarto apertado de memórias.

Marchinha na Santa Cecília

São Paulo, 3 de junho de 2017.

     Sentada no sofá, com meu gato no colo, ouço as taças dentro do armário da cozinha tremendo de leve. O chão e as paredes começam a vibrar sutilmente. Olho para o gato e ele me olha de volta. Sustentamos o olhar por poucos segundos. Ele está pronto para partir e quer que eu me junte a ele. Ele se levanta, se esfrega no meu peito, ronrona baixinho e me olha novamente. Balanço minha a minha cabeça. “Não. Eu não vou com você. Vou ficar aqui. Eu quero ver chegando.” Ele salta do meu colo.

     É um terremoto.

     Ou um incêndio. Ou talvez os dois.

     Um inevitável desastre qualquer, desses que a gente sabe que vai acontecer, mas que não sabe muito quando, muito como. No fundo acredita que é só uma sensação ruim, que não é real, que vai passar.

     E então, ele vem. Passa por mim derrubando todos os livros da estante que estavam organizados em ordem alfabética. Arrastando pra fora do meu quarto minhas meias separadas por cor. Rasgando os retratos bem pendurados, abrindo as tampas de caixas muito bem lacradas e esquecidas.

     Minhas roupas pegam fogo. E eu sentada. Vendo queimar. Imóvel. Paralisada.

     O fogo vai subindo, se aproximando. Meus pelos do corpo se arrepiam, meu coração começa a bater mais rápido. Abro a boca arfando por ar, mas não me movo.

     Espero o que quer que seja isso me atingir em cheio. Me derreter, me quebrar, me consumir. Meu peito se encheu de gritos insaciáveis de loucura, meu corpo se contorcendo, doente de um desejo irreconhecível. Envenenada com o desejo suicida de ver o que vai acontecer depois. Sinto mãos passando pelo meu corpo, pelo meu rosto, param no meu pescoço e apertam o suficiente pra eu sentir, mas não o necessário pra me matar. Sinto um sopro suave na minha pele, o ar quente vai se enrolando em volta de mim e me abraça, aconchegante. Me seduz. Ele quer que eu entre nele, mergulhe no abismo que se abriu no assoalho de madeira na minha frente. Ele não. Não é o vento, sou eu. Eu quero pular, me jogar. Algo dentro de mim grita, grita desesperadamente, suplica que eu me atire, faminto da sensação do vento gelado riscando seu rosto numa queda livre que parece interminável até você finalmente sentir seu corpo espatifar no chão.

     Então eu pulo.

     Eu pulo e dentro de mim algo explode, uma sensação inexplicável, euforia doentia, implacável. Sinto minha pele rasgar suavemente conforme me entrego. Sinto meu corpo tremer inteiro, possuído de desejo. Minha mente descolada do corpo. Dentro de mim o grito foi substituído por um gemido baixinho, de culpa, de medo, de prazer. Dentro de mim já não sei mais o que eu sou, virei um bicho.

     Observo o chão se aproximando cada vez mais rápido. Nas paredes eu vejo alguns galhos, poderia me segurar antes do impacto final, mas já não penso mais, não faço nada além de sentir o prazer de estar totalmente fora de controle.

     Quando encontro o chão, o impacto me congela. Sinto meu corpo físico se juntar novamente só para esfarelar logo em seguida. Vou virando pó aos poucos, ao mesmo tempo que percebo que meus pulmões foram totalmente destruídos na queda, então já não respiro mais. O ar entra pelo meu nariz e sai por um buraco no meio do meu estômago, arrastando todos os meus órgãos para fora, me deixando cada vez mais vazia, vazia, vazia…

     Quando sinto que só a carcaça sobrou e não posso mais suportar, meu corpo aos poucos vai se fundindo no chão. Agora eu sou algo não humano. Energia.

     Abro os olhos. Algum alarme de carro toca distante na rua. É isso que me acordou. Lembro do sonho que tive. Sinto uma dor absurda no peito, uma angústia me sobe pela garganta, tenho vontade de me arrancar de dentro de mim mesma. As lágrimas vem, engasgadas, sufocadas. Não são completas, nunca são. A dor vem em ondas.

     São 6h34 da manhã. Fecho os olhos novamente e torço para parar de sonhar.

Vinte e dois sinônimos de esperar para quatro sentidos da palavra esperar

São Paulo, 9 de maio de 2017
Tem um buraco no meio do meu peito e no meu esôfago tem um novelo. Fui deitar, já quase uma hora da manhã, a náusea me atormentando desde às oito.
O novelo tem raiz nos meus intestinos. Do esôfago ele sobe até a minha boca e sai toda vez que eu te vejo. Aí uma parte do novelo vai enrolando devagarinho em volta do meu pescoço, rastejando até o meu ombro, descendo pelos meus braços numa espiral infinita e falsamente inocente que eu vou vendo aumentar e não faço nada a respeito.
Quando você senta do meu lado ele já está na ponta do meu dedo, sorrateiramente se espalha pelo meu tronco, enrolando, enrolando.
De repente estamos rindo, conversando distraidamente. Sem querer meu cotovelo encosta no seu e lá eu deixo. Mas a essa altura o novelo já se enrolou pelo meu corpo todo e é tarde demais, estou completamente paralisada.
O buraco vai aumentando cada vez que eu tento me mexer e não consigo. Ele se alimenta da minha vontade de passar a mão no seu cabelo, mergulhar no seu abraço, vontade de deslizar meus dedos nos seus.
Dança comigo? Eu quero perguntar, mas a planta-bicho prendeu a minha língua e eu não pergunto. Resolvo ficar só olhando pra você mesmo, mas o buraco já tá tão grande que olhar pra você me sufoca.
Passam várias horas dessa minha dança mental, do quero mas não consigo, do quero mas não posso, do desejo perdendo pro medo, da incerteza sobre o que você tá pensando. Você se levanta e diz que precisa ir embora. Quero te pedir pra ficar mais um pouco, mas me engasgo e não peço. Penso que no dia seguinte tudo isso já não vai estar mais aqui, mas quando eu acordo está tudo apodrecido.
O podre vira náusea e ela vai subindo e descendo dentro de mim, uma flor de vísceras ocas derrubando pétala por pétala, numa brincadeira insuportável e idiota de bem-me-quer-mal-me-quer, espinhos de perguntas que me faço quando você vai embora.
– Tem alguma coisa aqui?
– Não tem nada aqui não, sua boba — a flor responde — Você não significa nada não. Aquele negócio que aconteceu não tem nada a ver com você, aquela sensação que você sentiu só você que sentiu, a escolha da música é mera coincidência. Você tá dançando sozinha a noite inteira, inebriada pela expectativa do nada ser alguma coisa, de você ser alguma coisa, mas você não é nada pra ele não.
O dia inteiro com o buraco no peito e o novelo no esôfago. Sabe, ele desenrola todo depois que você vai embora. É sugado de volta pra dentro da minha garganta e sentá lá, me sufocando.
Não sei mais se eu quero chorar ou vomitar esse vazio absurdo que essa relação imaginária e irrecíproca criou dentro de mim.
Deitei na cama uma da manhã. Às quatro acordei e vomitei você.

"Não desabafos, mas outras coisas"

São Paulo, 17 de abril de 2017

Sentada na beirada da sua cama, ouço suas músicas favoritas tocando baixinho, como cúmplices da nossa tragédia futura. A luz está apagada, a janela aberta e a luz do sol se pondo enche timidamente seu quarto, criando uma iluminação quase melancólica.
Você está parado na porta, a mão apoiada no batente, suas sobrancelhas quase arqueadas, numa expressão que eu não sei bem o que significa. Seus olhos cruzam com os meus, e então compreendo. É como se perguntasse: é isso mesmo que você quer?
Sabemos como viemos parar aqui. Quer dizer, talvez você não saiba, porque me convidou para me mostrar qualquer bosta no seu quarto, não é? Mas eu sei. Sei e, por um momento, analisando o jeito que você me olha, não acredito na sua inocência em me trazer aqui.
Finalmente entra e fecha a porta atrás de si.
Eu quero acreditar que você me chamou aqui sabendo o que eu realmente quero. Tocar você, sentir seu cheiro misturado no meu cheiro, sentir seu corpo encostar no meu, ignorando um suspiro de culpa que eu deixo escapar enquanto seus lábios ficam cada vez mais perto dos meus, enquanto as coisas vão acontecendo rápido demais para que sejam interrompidas.
Por um instante, temo que isso seja verdade, porque se for, está feito. Eu não tenho forças suficientes para parar essa loucura aguda que me atingiu desde que te conheci. Não tenho.
Mas é claro que uma parte de mim está extasiada com essa possibilidade e ela teme que isso seja mais uma das minhas fantasias absurdas, mais um dos meu quase-delírios porque obviamente você só me chamou lá pra me mostrar um retrato, um desenho, um sei lá o que. Inocente.
Você sabe, não sabe? Sabe que eu não quero ser só sua amiga. Você sabe que eu quero entrar nessa espiral de insanidade com você, ignorar todas as minhas responsabilidades com ele, ignorar todas as promessas que eu fiz pra ele. Nós conversamos sobre isso antes, sobre como eu estou confusa. Você sabe.
De repente, não consigo mais analisar todas as consequências que antes se acumulavam na minha cabeça. Pra você é só um jogo, não é? Amanhã você acorda livre. Ninguém é testemunha, não há ninguém pra prestar contas, nem mesmo pra você mesmo, porque afinal, o que eu sou pra você? Não há consequências pra você.
Você se vira de costas, pega um livro na estante. Ah, era isso que você queria me mostrar, um livro. Uma recomendação de leitura inofensiva. Você anda ao meu encontro, segurando frouxamente o livro, até que o deposita suavemente ao meu lado, na cama, ao mesmo tempo que se senta na minha frente.
Percebo que faz alguns minutos que você não fala nada, nem eu. Esquadrinho seu rosto, até finalmente descansar meu olhar no canto do seu lábio inferior, onde você tem uma pinta quase imperceptível. Impulsivamente, encosto minha cabeça no seu ombro. Você hesita.
Nesse nanossegundo, todo arrependimento que vinha se acumulando por ter ido ao seu encontro parece que vai me consumir instantaneamente. Fazia tanto tempo que nós não nos víamos. Não tinha nenhum motivo pros nossos caminhos se cruzarem novamente, não desse jeitoalém do meu desejo desesperado de viver algo com você antes que fosse tarde demais.
Mas você finalmente me abraça, um pouco desajeitado pela nossa disposição estranha na beirada da cama.
Ficamos assim por alguns segundos, que parecem ser exaustivamente longos, até que você se afasta.
Não consigo mais olhar nos seus olhos.
Você passa a mão no meu cabelo, delicadamente elevando meu rosto para que nossos olhares se cruzem novamente.
– É isso mesmo que você quer?
Faço um movimento afirmativo com a cabeça. Você me beija. Já não estamos mais sentados. Fecho os olhos e sinto você pressionar seu corpo contra o meu.